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Antes da ação na Síria

PARIS - O presidente socialista da França, François Hollande, tornou a vestir "os trajes de comandante de guerra" que já havia usado com prazer e sucesso em janeiro para erradicar os jihadistas instalados no Mali. Agora, o inimigo mudou e é mais duro: a Síria. Mas Hollande não está sozinho. O premiê britânico, David Cameron, está na mesma linha. E, mais importante, o presidente americano Barack Obama, que faz corpo mole há um ano, se mostrou predisposto a uma intervenção.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2013 | 02h07

O motivo da aceleração? O horror do massacre de algumas centenas de inocentes por gases tóxicos. As imagens revoltantes dos mártires sírios mexeram com o mundo. Seria o caso concluir que os povos, de repente, se predispuseram à guerra, como fizeram os políticos? Absolutamente. O caso britânico é eloquente. Cameron foi, junto com Hollande, o líder ocidental mais inclinado à guerra. Às vésperas de um ataque, porém, ele mal consegue mobilizar a opinião pública. Segundo pesquisa, 50% dos britânicos são contra ataques à Síria - só 25% os aprovam.

Com certeza, essas reticências britânicas se baseiam na lembrança insuportável da invasão do Iraque. Tivemos recentemente uma prova disso porque Tony Blair, o ex-premiê britânico, que havia lançado seu país na fornalha iraquiana, acaba de defender alegremente uma ação enérgica contra a Síria. Ele faria melhor se ficasse quieto.

"Lá vem o Blair de novo", reclama o deputado conservador Adam Holloway. "Se ele ainda estivesse no poder, nós já teríamos invadido a Síria." O caso da Alemanha é diferente. A chanceler, Angela Merkel, e seu ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, não têm o menor gosto por aventuras militares. Em 2011, quando se tratou de montar uma operação contra o ditador líbio Muamar Kadafi, Berlim foi contra a ponto de misturar sua voz com a de Moscou e de Pequim na ONU, desaprovando franceses e americanos. Sobre a Síria, Berlim permanecia na mesma linha. Até o último sábado, excluía qualquer solução militar.

A ignomínia dos gases tóxicos, porém, provocou um choque elétrico na Alemanha. Desde a segunda-feira, Westerwelle esqueceu seu "pacifismo" para proclamar que a matança teria "consequências" - prudente, ele não precisou, contudo, quais seriam. Apesar disso, e como na Grã-Bretanha, a opinião pública não acompanhou a chancelaria. O semanário Stern informou que 69% dos alemães são hostis a uma intervenção - apenas 39% a aprovam.

Na França, a posição contundente de Hollande é aprovada pelo Partido Socialista, é claro, mas também pelo partido de direita União por um Movimento Popular (UMP). Em compensação, e sem surpresa, a opção de Hollande é ridicularizada pelos partidos extremistas. Pela extrema esquerda, Jean-Luc Mélenchon disse: "É um erro gigantesco, talvez o umbral de uma guerra muito maior". O partido neofascista, de Marine Le Pen, acrescentou: "A França está novamente subordinada aos EUA".

REAÇÃO EM CADEIA

Tudo isso é um pouco caricato. No entanto, nos detalhes, as coisas são mais nuançadas. Por exemplo, entre os socialistas, alguns se perguntam em voz alta se o seu chefe, Hollande, não estará sendo um pouco "reativo" demais. O mesmo no campo da direita. Foi por isso que um dos principais jornalistas do Figaro (de direita), Renaud Girard, publicou um grande artigo, aliás brilhante e poderoso, com o título: Os perigos de uma intervenção na Síria.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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