Antes da posse, 'abismo fiscal' já desafia 2º mandato de Obama

Republicanos e democratas se mantêm distantes do acordo que poderia evitar a paralisia do governo

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2012 | 02h04

O segundo mandato do presidente Barack Obama já começou com o desafio de evitar a queda dos EUA no "abismo fiscal" em 1º de janeiro - 20 dias antes de sua posse. O Congresso e a Casa Branca têm a missão de fechar um acordo sobre o ajuste nas contas públicas para os próximos 10 anos até o dia 31. Se não conseguirem, Obama terá de se desdobrar, como nos últimos quatro anos, para tirar o país de uma nova recessão. Esta semana começou, entretanto, com os dois lados ainda entrincheirados e sem sinais de conciliação.

"Não posso prometer que os Estados Unidos não cairão no abismo fiscal. Essa decisão está nas mãos dos republicanos, que estão se opondo ao aumento das alíquotas dos impostos (sobre os mais ricos)", afirmou o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, à rede de televisão FoxNews. "Esta proposta (da Casa Branca) não é séria. O presidente e a Casa Branca tiveram três semanas (para trabalhar) e isso foi o melhor que puderam fazer?", desafiou o republicano John Boehner, presidente da Câmara dos Deputados, ao declarar publicamente pela terceira vez em apenas quatro dias não haver seriedade por parte dos democratas.

Com o abismo fiscal, o Pentágono, um dos braços da política externa americana, perderá automaticamente US$ 55 bilhões de seu orçamento para 2013. Outros US$ 55 bilhões serão cortados, apenas no ano que vem, de outras áreas do governo federal. O Departamento de Estado estará sujeito a essa redução de gastos, mas esse custo será mais concentrado nas áreas sociais do governo. No total, até 2022, US$ 1,2 trilhão em gastos federais será limado obrigatoriamente.

O abismo será cruel para os americanos, em geral. A perspectiva de recessão tem sido apontada por agências do governo e do Congresso e também por especialistas. O FMI projeta um recuo de quatro pontos porcentuais na atividade econômica, que fecharia em 2013 com resultado negativo. No terceiro trimestre de 2012, a economia americana cresceu 2,7%. O Escritório de Orçamento do Congresso estima o aumento do desemprego, hoje em 7,9%, para 9,1%.

Isso não acontecerá apenas por causa do impacto do corte dos gastos federais, mas também porque todos os benefícios fiscais concedidos nos últimos anos para as classes média e alta vão desaparecer, para gerar receita adicional de US$ 400 bilhões. Uma família típica da classe média, que pagou US$ 3.600 menos em Imposto de Renda neste ano, passaria a recolher mais US$ 2.200 em 2013. Os desempregados não terão seus cheques do governo renovados. Nas contas do governo, a classe média deixará de consumir US$ 200 bilhões no próximo ano.

O acordo fiscal terá de envolver também o aumento no atual limite de endividamento do governo federal americano, de US$ 16,394 trilhões. Com o "abismo", o Departamento do Tesouro não estará autorizado a emitir os títulos necessários para cobrir a dívida a vencer, os gastos correntes do governo, os salários dos servidores públicos e os seus contratos. Obama estará de mãos atadas e bolsos vazios. Para afastar esses riscos, as bancadas republicana e democrata no Congresso terão de se entender.

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