Yves Herman/Reuters
Yves Herman/Reuters

Antes de marcha e sob nova ameaça da Al-Qaeda, Paris multiplica segurança

Governo francês desloca 500 novos agentes para Paris na véspera da manifestação silenciosa que deve reunir multidão neste domingo, incluindo chefes de Estado

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2015 | 16h02

Diante das novas ameaças feitas à França por um porta-voz do grupo terrorista Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), o governo anunciou ontem um reforço para prevenir atentados. Mais 500 soldados, policiais e agentes de serviços de inteligência serão deslocados à capital. Em paralelo, uma caçada continua a Hayat Boummedienne, companheira de Amedy Coulibaly, autor de dois atentados que deixaram cinco mortos entre quinta e sexta-feira.

As novas advertências foram feitas em vídeo publicado na internet ainda na sexta-feira e localizado pelo Site, um centro de observação de atividades jihadistas na rede mundial. No vídeo, Harith Al-Nadhari, ideólogo islâmico da AQPA, não reivindica os ataques a Paris, mas afirma: “Vocês não estarão em segurança enquanto combaterem Allah, seu mensageiro e seus fieis”. Em outro trecho, ele completa: “Soldados que adoram Allah e seus mensageiros estão entre vocês. Eles não temem a morte, eles procuram o martírio em nome de Allah”.

Pela manhã, uma reunião ministerial, a sétima desde o início da crise, foi coordenada pelo presidente da França, François Hollande. Nela foram discutidas as investigações e medidas para reforçar a proteção interna. “Estamos expostos a risco. É importante que o plano (antiterrorismo) Vigipirata, que foi elevado (ao grau máximo) em toda a Île-de-France, seja mantido nas próximas semanas”, informou o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve. “É a razão pela qual decidimos manter a mobilização e aumentá-la para proteger um certo número de instituições.”

Um contingente de 500 novos agentes será deslocado para Paris e imediações, dos quais 250 soldados de regimentos do interior, de acordo com o Ministério da Defesa, que integrarão um efetivo de 1,1 mil militares do Exército nas ruas.

Ainda conforme Cazeneuve, a segurança para a manifestação silenciosa está garantida. “Todas as medidas foram tomadas para que essa manifestação possa acontecer em recolhimento, com respeito e com segurança”, afirmou, reiterando: “Todas as disposições foram tomadas para garantir a segurança dessa reunião.”

Mais de cem mil pessoas participaram de passeatas silenciosas em luto e memória das vítimas dos atentados terroristas realizados nos arredores de Paris. De acordo com o jornal francês Le Monde, passeatas em Orleans tiveram 22 mil manifestantes. Em Nice, sul do país, 23 mil caminharam ontem silenciosamente à beira do mar. 

Há duas preocupações urgentes para as forças de segurança. A primeira é justamente a maior das manifestações, a marcha silenciosa, que partirá neste domingo, 11, de Praça da República, no centro de Paris. Dela participarão os mais importantes líderes europeus, como Hollande, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e os primeiros-ministros da Grã-Bretanha, David Cameron, da Itália, Matteo Renzi, da Espanha, Mariano Rajoy, e da Turquia, Ahmet Davutoglu, além de chefes de Estado e de governo de fora da Europa – a líder de extrema-direita Marine Le Pen não foi convidada. Para garantir a segurança da multidão, pelo menos 1,3 mil militares vigiarão o centro da capital.

A ameaça concreta não impediu que o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, convocasse a população a sair às ruas “em grande número”. “Será uma manifestação excepcional, que deve ser forte, digna, e deve mostrar o poder e a dignidade do povo francês, que vai gritar seu amor pela liberdade e pela tolerância”, afirmou. 

Fuga. A segunda razão de preocupação da polícia e dos serviços secretos da França é a caçada para localizar e prender Hayat Boummedienne, companheira de Amedy Coulibaly, o autor dos atentados a Montrouge e a Porte de Vincennes, em Paris, nos quais cinco pessoas morreram e cinco ficaram em estado grave. Hayat, de 27 anos, passou a ser oficialmente alvo de buscas na tarde de sexta-feira, quando o Ministério do Interior publicou um alerta nacional confirmando seu envolvimento nos atentados, cometidos em nome da Al-Qaeda da Península Arábica. Ela deixou a França na quinta-feira e estaria com integrantes do Estado Islâmico (EI) na Síria.

Fotos de Hayat vestindo o nicab – o véu islâmico integral – e apontando pistolas foram divulgadas pela polícia ontem. As mulheres de Coulibaly e de Chérif Kouachi, um dos dois irmãos – o outro era Said – autores do atentado contra o Charlie Hebdo, estavam em contato e trocaram ao menos 500 ligações telefônicas, segundo a Procuradoria da República. Sob custódia, a mulher de Chérif confirmou que os terroristas se conheciam bem, mais uma pista de que os atentados de Charlie Hebdo, Montrouge e Porte de Vincennes estavam conectados.

Segundo as investigações, todos integravam a mesma célula jihadista, a Buttes-Chaumont, criada em Paris nos anos 2000, desbaratada em 2005 e julgada em 2008. Nessa oportunidade, Said chegou a ser condenado a quatro anos de prisão, pena que cumpriu antes de ser liberado para voltar às ruas. No total, os ataques executados pelo grupo deixaram 17 mortos, 12 dos quais na ação contra o jornal na quarta-feira, uma policial na quinta-feira e 4 clientes de um mercado de produtos judaicos na sexta-feira.

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