Antes de partir, Gates avisa que Otan arrisca virar irrelevante

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, fez críticas duras aos aliados europeus dos EUA na sexta-feira, dizendo que a Otan corre o risco de "irrelevância militar coletiva" se não começar a arcar com uma parte maior do ônus e elevar seus gastos militares.

DAVID ALEXANDER E DAVID BRUNNSTROM, REUTERS

10 de junho de 2011 | 14h29

Em um último discurso político antes de se aposentar, no final do mês, Gates disse que as operações lideradas pela Otan no Afeganistão e na Líbia chamaram a atenção para insuficiências importantes nas capacidades militares e vontade política entre os aliados.

Com os EUA diante da obrigação de fazer cortes orçamentários dolorosos em casa, na medida em que o presidente Barack Obama enfrenta um déficit de 1,4 trilhão de dólares, Gates avisou que os parlamentares americanos podem começar a questionar o fato de Washington custear 75 por cento dos gastos da Otan com a defesa.

Isso significa, disse ele, que existe "uma possibilidade real de um futuro desanimador, se não lúgubre, para a aliança transatlântica".

"A realidade nua e crua é que haverá vontade e paciência decrescentes (dos EUA) de gastar recursos cada vez mais preciosos em prol de países aparentemente não dispostos a dedicar os recursos necessários ou fazer as modificações necessárias para serem parceiros sérios e capazes em sua própria defesa", disse Gates.

"Se as tendências atuais de declínio nas capacidades de defesa europeias não foram sustadas e revertidas, líderes políticos futuros dos EUA - para quem a Guerra Fria não foi a experiência formativa que foi para mim - podem não considerar que os retornos sobre os investimentos da América na Otan justificam os custos."

Apesar de contarem com mais de 2 milhões de soldados uniformizados, os países da Otan, excetuando os EUA, têm dificuldade em manter 25 mil a 45 mil soldados no Afeganistão, "não apenas em termos de soldados em campo, mas em equipamentos de apoio cruciais como helicópteros, aviões de transporte, manutenção, inteligência e vigilância."

Gates disse que as operações aéreas contra as forças do líder líbio Muammar Gaddafi expuseram outras limitações, com um centro de operações aéreas projetado para lidar com mais de 300 saídas de aviões por dia tendo dificuldade em lançar 150 e os Estados Unidos sendo obrigado a completar as munições escassas.

Gates disse que os problemas com os investimentos em defesa constituem um mau presságio quanto a assegurar que a Otan possua capacidades comuns cruciais e atualizadas.

De acordo com ele, os EUA enfrentam uma crise econômica profunda, e a defesa terá que ser incluída entre os grandes cortes de despesas.

Suas declarações foram feitas após dois dias de reuniões da Otan em que Gates disse que poucos países estavam carregando o ônus maior das operações na Líbia e assinalou cinco países que exortou a fazerem mais.

Ele teria pedido que Espanha, Turquia e Holanda façam missões aéreas de ataque além das missões aéreas que já estão empreendendo. E exortou a Alemanha e Polônia, que não estão contribuindo, a encontrar maneiras de ajudar.

A porta-voz da Otan Oana Lungescu disse que o secretário-geral da aliança, Anders Fogh Rasmussen, compartilha as preocupações de Gates.

Gates disse que apenas cinco dos 28 aliados - Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Grécia e Albânia - gastam 2 por cento de seus PIBs com defesa, conforme prevê a Otan.

Obama nomeou o chefe da CIA, Leon Panetta, para assumir o lugar de Gates à frente do Pentágono.

(Reportagem adicional de Gwladys Fouche em Oslo)

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