Antes de ser jihadista, australiano foi porteiro de boate

Mohamed Ali Baryalei, afegão de 33 anos, foi para a Síria onde se tornou oficial de alto escalão do grupo radical

SYDNEY, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2014 | 02h02

Em King's Cross, bairro de prostituição na maior cidade australiana, Mohamed Ali Baryalei usava a voz grave para atrair fregueses para a casa noturna Love Machine e a força bruta para manter afastados os frequentadores indesejados. O mundo dele girava em torno de prostitutas, drogas, gangues e jogatina, de acordo com a polícia.

Mas, alguns anos atrás, Baryalei, filho de refugiados afegãos que se instalaram nos subúrbios da cidade, converteu-se ao Islã e viajou para a Síria, onde ressurgiu como tenente do grupo extremista Estado Islâmico (EI). De acordo com as autoridades australianas, ele foi ouvido ao telefone este mês instruindo um jovem australiano a filmar a decapitação de uma vítima aleatória em Sydney.

A chamada interceptada deu início à maior operação de combate ao terrorismo da história da Austrália, resultando na prisão de um rapaz de 22 anos em Sydney, entre outras ações policiais.

O caso de Baryalei, ex-leão de chácara de 33 anos que um dia emplacou um papel menor no episódio de uma novela australiana, chamou a atenção por mostrar o poder de influência dos extremistas. A polícia o descreve como o australiano de mais alta patente combatendo nas fileiras do EI.

O avô de Baryalei era poeta e primo de segundo grau de Zahir Shah, último rei do Afeganistão, de acordo com investigação de uma emissora de TV australiana. A família deixou o Afeganistão em 1981, durante a guerra contra a União Soviética, meses após o nascimento de Baryalei, passando pela Índia antes de ir para Sydney.

O rapaz teve um relacionamento tumultuado com o pai, sofreu crises de depressão na adolescência e teve desempenho sofrível durante a breve permanência numa escola católica de alto padrão no ensino fundamental, de acordo com a mesma reportagem da TV australiana. Ele acabou se formando no ensino médio numa escola do governo e foi parar em King's Cross, onde as casas noturnas e bordéis costumam ser controlados por proprietários com origem no Oriente Médio.

"Ele tem a aparência e a reputação de sujeito durão que lida com os problemas na porta da casa noturna", disse Clive Small, ex-oficial de polícia de Sydney. "Mas, por trás da aparência de durão, ele estava com raiva do mundo e da família, frustrado com o andamento das coisas e simplesmente pronto para ser recrutado pelos militantes."

A Love Machine, espremida entre o Hotel Vegas e o Bada Bing Nightspot, é uma das casas noturnas mais famosas de Sydney. Funciona 24 horas por dia e oferece "tudo que se possa desejar, quando quiser".

Ainda não se sabe como Baryalei foi da Love Machine até o EI. Mas, em algum momento após 2009, ele se juntou a um grupo que recruta jovens muçulmanos para fazer pregações perto de universidades e de shoppings, segundo a polícia.

O contato inicial de Baryalei com os militantes parece ter ocorrido por meio de Hamdi al-Qudsi, de 40 anos, morador de Sydney preso em dezembro por acusações de recrutar e de ajudar sete australianos a viajar até a Síria.

Entre os recrutas que Baryalei teria reunido estavam um cidadão americano nascido na Austrália e sua mulher, filha de um rico dono de restaurante de origem libanesa em Queensland. A polícia disse que ambos foram mortos durante combates em Alepo. Dezenas de australianos morreram em combates na Síria.

De acordo com documentos entregues pela polícia aos tribunais que julgam o caso, Baryalei viajou à Síria em abril de 2013 e, posteriormente, manteve contato telefônico constante com Al-Qudsi, contando a ele a respeito de um combate mortífero num telefonema. Baryalei disse à mãe e às irmãs que estava estudando no exterior.

A ligação de Baryalei para um jovem este mês levou as autoridades a vasculhar dezenas de casas nos subúrbios de Sydney. O premiê australiano, Tony Abbott, logo apresentou uma rigorosa proposta de lei que daria à polícia e às agências de espionagem maiores poderes de vigilância e detecção, medidas que foram consideradas "exageradas" pela oposição. / NYT

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