Andre Dusek / Estadao
Andre Dusek / Estadao

Antichavistas enfrentam périplo até Brasília para protestar, sem estragar sapatos e amassar ternos

Roderick e Bittar percorreram a pé estradas de lama de áreas dominadas pelo tráfico e enfrentaram na carona de motocicletas o vento e o frio dos Andes para denunciar Maduro

Leonencio Nossa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2017 | 20h21

Eles atravessaram na boleia de caminhão a perigosa fronteira da Venezuela com a Colômbia, percorreram a pé estradas de lama de áreas dominadas pelo tráfico e enfrentaram na carona de motocicletas o vento e o frio dos Andes. 

Quatro ativistas do movimento de direita Rumbo Libertad, de Caracas, chegaram a Brasília, para denunciar o presidente Nicolás Maduro no Congresso e no Itamaraty. Antes, em uma escala em Bogotá, fizeram uma “vaquinha” virtual para completar, por via aérea, o trajeto. O grupo é um dos muitos que surgiram com discurso de direita não moderada, carregado de clichês de combate ao “comunismo”, no rastro da escalada da violenta repressão política do governo venezuelano.

Um dos coordenadores do grupo, o cientista social Roderick Navarro, de 29 anos, afirma que a situação na Venezuela, após a morte de Hugo Chávez, “deixou de ser uma disputa entre chavistas e oposicionistas”, entre direita e esquerda. “O que existe hoje é uma oligarquia no poder que mata”, acusa Roderick. 

Diante da série de mortos pela polícia nas ruas de Caracas, denunciada pelas Nações Unidas (ONU), os ativistas deixaram de lado o discurso ideológico para manter o foco na denúncia das violações aos direitos humanos. “Os mais de 130 assassinatos foram determinados pelo corpo do Estado venezuelano”, afirma Roderick.

Ele afirma que os presos políticos enfrentam tortura e até abusos sexuais por parte de agentes de segurança. Roderick cita a morte do estudante Neomar Lander, de 17 anos. “Neomar foi morto pelo impacto no seu peito da explosão de uma bomba de gás”, afirma o ativista venezuelano. 

Na versão do procurador-geral, Tarek William Saab, homem ligado a Maduro, o estudante morreu ao manusear uma bomba caseira. Saab foi colocado no cargo após a destituição de Luisa Ortega Díaz, que rompeu com o governo. Ela investigava as causas de 125 mortes relacionadas aos protestos. O Alto Comissariado da ONU denunciou que pelo menos 46 pessoas foram mortas diretamente por agentes policiais. A organização também relatou casos de torturas e prisões políticas.

Outro integrante do Rumbo Libertad, o jornalista Eduardo Bittar, de 30 anos, diz que o movimento prega a desobediência civil. “A nossa proposta é deslegitimar o regime e não democratizá-lo”, afirma. “Todas nossas ações são para não ter eleições, fazer pressão social”, afirma. Ele nega relações com partidos políticos, mesmo de oposição a Maduro. “Nosso objetivo claro é restabelecer a ordem constitucional.”

Bittar disse que teme pela segurança da mulher e da filha pequena que ficaram em Caracas. Segundo ele, recentemente, a família escapou de uma tentativa de sequestro por parte da repressão.

O grupo atravessou o trecho de fronteira entre San Cristóbal, na Venezuela, e Cúcuta, na Colômbia, como turistas. Esse é o trecho da fronteira mais usado pelos venezuelanos que buscam abrigo no país vizinho, um movimento inverso ao verificado nos anos de atuação da guerrilha colombiana. Depois de entrevistas dadas pelos ativistas a jornais e sites de Bogotá, o governo venezuelano pediu à Interpol a prisão deles.

Diferentemente dos clássicos mochileiros de esquerda, eles viajaram com malas, para evitar que os sapatos engraxados e os ternos estragassem. De paletó e gravata, eles têm conseguido entrar nos gabinetes de deputados na Câmara e nas salas de diplomatas no Itamaraty. 

O périplo do grupo em Brasília coincidiu com a visita à capital da ex-procuradora Ortega, que foi aliada do ex-presidente Hugo Chávez e rompeu com Maduro. “Ela que traga as denúncias, que se manifeste. Que vá para os Estados Unidos e faça o que fez aqui e denuncie o que temos mostrado há anos”, disse Roderick.

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