Anticomunismo cegou a política externa dos EUA

Todas as diplomacias cometem grandes erros. Os da Casa Branca são ainda mais numerosos e mais absurdos que os dos outros países? É difícil dizer. No entanto, é verdade que o drama de Nova York, provavelmente organizado a partir do Afeganistão, é em seu gênero uma obra-prima de besteira.Não vamos voltar aos detalhes desse erro crasso, muitas vezes já explicado. Tentemos, de maneira caridosa, encontrar sobretudo na ação americana, se não uma justificativa, pelo menos uma racionalidade.Essa racionalidade bebe em uma única fonte: o anticomunismo que, na América da guerra fria, chegou a uma intensidade tal, a uma histeria tal, que toda a diplomacia dos Estados Unidos ficou cega.Estávamos no "grau zero da diplomacia", de tão simplista, tão pueril que era seu postulado: "Se o diabo for anticomunista é preciso então aliar-se com o diabo".Estoques gigantescos de armasFoi o que se passou no Afeganistão. O apoio de Washington aos talebans e a Bin Laden, essa trágica besteira, na verdade, remonta ao tempo da invasão do Afeganistão pelos soviéticos de Brejnev. Na época, Washington colocou, sem hesitar, todos os seus recursos a serviço daqueles que, poucos anos depois, iam tentar matar a América.Estoques de armas gigantescos foram distribuídos aos guerrilheiros afegãos, armas entre as quais encontram-se mísseis que, ontem mesmo, permitiram aos talebans abaterem um "avião espião" ocidental.Dirão que Washington e a CIA ajudaram as forças anticomunistas em muitos outros lugares da terra. Por exemplo, auxiliaram o Chile a derrubar e a assassinar o presidente Salvador Allende e a substituí-lo pelo general Pinochet.Mas o caso é diferente: na realidade, embora o reino de Pinochet tenha sido cruel para o povo chileno, em compensação Pinochet jamais se revoltou contra seu "padrinho" americano. Ao contrário. Portanto, do ponto de vista americano, a intervenção da CIA, na época de Kissinger, não foi um erro ou um fracasso.Criatura contra criadorO que dá um valor funesto ao caso dos talebans é que a "criatura" (os talebans ou Bin Laden) revoltaram-se contra seu "criador" - os Estados Unidos, e com uma demência que provocou o apocalipse de Nova York. É o que poderia ser chamado de "modelo Frankenstein".Frankenstein, no romance de Mary Shelley, é um ser artificial, fabricado por um sábio com pedaços de cadáveres. Mas o pobre Frankenstein é tão feio, inspira tanto horror aos outros, que se revolta contra seu "inventor" e o mata.Noriega, outro casoPodemos citar outra marionete da CIA que se voltou contra seu protetor: foi, no Panamá, o general Noriega, conhecido como "cara de abacaxi".Noriega, chefe dos serviços secretos do Panamá a partir de 1970, é uma criatura da CIA e do Pentágono. É muito ligado também a Cuba, o que lhe vale a reputação de ser um "agente duplo" (Não, agente quádruplo", dizem seus amigos com um certo orgulho).Mais tarde, os Estados Unidos começam a compreender que seu afilhado é um canalha. Em 1986, o New York Times descreve, sob um ângulo tenebroso, o honrado correspondente da CIA e do Pentágono, Noriega: ele controla o tráfico de drogas. Envia armas para os revolucionários da região (o M19 da Colômbia, o FMLN de Salvador). Fornece tecnologia sofisticada a Cuba, inimiga mortal dos Estados Unidos.Colaborador útilA opinião pública americana ficou chocada. A cólera é tanta, que é preciso fornecer explicações. A que apresenta Elliot Abrams, ex-subsecretário de Estado para os assuntos americanos, é de uma candura sinistra: "Noriega foi um colaborador útil para os serviços de espionagem americana. Ele permitiu o desenvolvimento de grandes operações americanas no solo panamenho".Mas foi preciso esperar 1990 para que os Estados Unidos pudessem finalmente se livrar de quem haviam manufaturado com tanto cuidado. Em 1992, Noriega foi condenado a 40 anos de prisão por tráfico de drogas, mas os estragos dessa besteira para a imagem dos Estados Unidos na América Central são gigantescos.CIA, bode expiratórioSeria possível fazer um grande volume desse gênero de erros. É comum colocá-los nas costas da CIA. Hipocrisia. Sem dúvida, os homens da CIA, como todos os espiões, não são muito simpáticos. Mas, apesar de tudo, a CIA está sob as ordens do presidente. Kennedy quis responsabilizar a CIA pelo grotesco desembarque na Baía dos Porcos, após a vitória de Fidel. Mas evidentemente a CIA não fez essa operação sem o aval de Kennedy...Outros países do Ocidente não teriam razão de ridicularizar a falta de perspicácia da diplomacia americana. A França "cometeu uma catástrofe" ao mexer nos presidentes africanos como se mexe peças de xadrez e ao escolher muitas vezes o mais nulo ou o mais corrupto (Bokassa, no Centro-Africano, Mobutu, no Zaire etc.). Reconheçamos que, às vezes, as escolhas foram boas (Houphouet-Boigny, na Costa do Marfim, Léopold Sedar Senghor, no Senegal...).Um outro grande país poderia ser citado. Se, pouco depois da independência de Uganda, em 1972, um boxeador chamado Idi Amin Dada tomou o poder, foi, dizem rumores tenazes, graças ao Serviço de Inteligência britânico.Anos macabrosSabemos o que aconteceu depois. Anos macabros. A Inglaterra foi forçada a romper as relações diplomáticas com o farsante sangüinário em 1976. Em sete anos de poder, Amin Dada matou 200 mil pessoas.Para voltar à diplomacia americana, há um outro erro crasso, mais recente, no Kosovo. Relembremos os fatos: a Sérvia (eslava e ortodoxa), governada pelo maléfico Milosevic, oprime uma de suas províncias, a província do Kosovo, povoada por albaneses, ou seja, muçulmanos.Os sérvios perseguiram tão continuamente os kosovares, que a Otan, sob o estímulo dos Estados Unidos, decide atacar a Sérvia. Um dilúvio de bombas. O Kosovo livrou-se do terror sérvio e Milosevic não se manteve muito tempo no poder. Conseqüentemente, não há o que dizer. Salvo que...MarioneteSalvo que a chefe da diplomacia americana, a consternante Madeleine Albright, teve a idéia de se aliar contra Slobodan Milosevic, não com o chefe moderado dos muçulmanos do Kosovo, o inteligente Ibrahim Rugova, mas com o UCK (Exército de Libertação do Kosovo, cujo líder era Adem Jashari), ou seja, com o partido mais extremista, recrutado entre antigos "maoístas", inimigos declarados do Ocidente.Foram esses mesmos resistentes do Exército de Libertação do Kosovo que, este ano, tentaram conduzir a guerra no sul do Kosovo contra a Macedônia. Também neste caso, a marionete escapou de seu mestre.Felizmente, as destruições não se comparam à organização, à instrução e aos equipamentos dos talebans. Em compensação, o pretexto do anticomunismo que se pode, a rigor, invocar no caso dos talebans, não pode mais ser pronunciado no caso do Exército de Libertação do Kosovo, uma vez que a União Soviética já desapareceu há anos. E então?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.