Eric FEFERBERG AND JOEL SAGET / AFP
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Gilles Lapouge
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Antifascistas desunidos

A frente que deveria se unir em torno de Macron não emplacou

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h00

Na noite do primeiro turno da eleição presidencial francesa, tudo estava muito claro. Restaram os finalistas que se defrontarão no domingo: Emmanuel Macron, um desconhecido, um óvni, que não é nem de direita nem de esquerda; e Marine Le Pen, com suas falanges de ultradireita. O resultado do segundo turno parecia indiscutível: Macron, jovem cortês, ex-banqueiro, sempre bem penteado, nocautearia Marine e seus fascistas. 

Mas agora a previsão se complica e o horizonte treme. Embora a vitória de Macron continue provável, não é mais certa. Mais uma vez, a França entra em vertigem. O que aconteceu? Macron se embriagou com o desempenho, considerando-o um triunfo, e isso lhe subiu à cabeça. Compreende-se. Há um ano, ele não era nada. E eis que, de repente, todos seus adversários estão caídos, contorcendo-se. 

Desde aquele domingo, ele vinha comemorando uma vitória ainda não consumada. Com os amigos, correu para o restaurante famoso La Rotonde. Parecia um turfista que ganhou a trifeta e chamou sua turma para festejar. Mas há algo mais grave. Acreditava-se que uma “frente republicana” anti-Marine se formaria em torno de Macron, para conter a onda populista. Esperava-se que todos os antigos adversários de Macron se juntassem a ele: François Fillon, da direita tradicional, Jean-Luc Mélenchon, da extrema esquerda, o socialista Benoît Hamon. Mas a frente não emplacou. Em dois dias, estava cheia de frestas e rupturas. 

Os católicos, por exemplo. Em teoria, deveriam confluir maciçamente para Macron, candidato elegante, educado, saído de boas escolas, e não para a falastrona Le Pen, com suas ideias fascistas, ódio doentio aos árabes e imigrantes em geral. Entretanto, embora a maior parte dos católicos vá votar em Macron, nos últimos dias cresceu o número dos que votarão em Le Pen. Por quê? Por duas razões. 

A primeira é que uma parte dos católicos, especialmente os ricos, jamais aceitou a democracia, com sua vulgaridade, libertinagem, cosmopolitismo. No primeiro turno, esse segmento votou em Fillon, do partido Republicanos, que vai à missa todos os domingos. Com ele fora do páreo, a conversa é “não vamos nos rebaixar a esse Macronzinho, que nem fiel deve ser”. 

A segunda razão: dois anos atrás, a França se viu dividida entre os contrários e os favoráveis ao casamento homossexual, os contrários e os favoráveis à reprodução assistida. Os católicos ficaram contra o casamento e organizaram manifestações para impedir a lei. Os protestos tiveram grande sucesso, embora a lei acabasse aprovada. Na época, uma parte dos católicos decidiu medir forças e criou o movimento Senso Comum – uma facção de direita rigorosa, muito hostil aos socialistas e à esquerda. O grupo fechou com Fillon. 

Com o candidato eliminado, a tristeza e a cólera se abateram sobre as hostes do Senso, que se sentiram órfãs. Uma parte se absterá de votar. Outra, em lugar escolher Macron, votará em Le Pen. 

É provável que, apesar de tudo, Macron derrote Le Pen e se torne presidente. Mas haverá sequelas. O fracasso de Fillon, o bom desempenho de Le Pen, a vitória de Macron – tudo isso libertou forças até aqui contidas. É o caso dos católicos. 

Implosão semelhante ocorre entre os socialistas: a maior parte fica com Macron, mas muitos se absterão. Na direita clássica, de Nicolas Sarkozy, muitos votarão em Macron, mas um bom número se absterá ou se realinhará com Le Pen. É como se a entrada em cena do desconhecido Macron tivesse o efeito de uma bomba atômica de bolso lançada em meio à adormecida política. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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