Hossein Mersadi/ AP
Hossein Mersadi/ AP

Antigos rivais, Irã e Iraque dão resposta simultânea aos EUA 

Em posição delicada e em luto em razão da morte do general Qassim Suleimani, líderes dos dois países começam a tomar medidas depois do bombardeio americano

The Economist, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2020 | 06h00

Do aeroporto de Bagdá, onde um ataque aéreo americano o matou, até sua cidade natal, Kerman, a cerca de 1.300 quilômetros de distância no Irã, centenas de milhares de pessoas lotaram as ruas em luto pelo general Qassim Suleimani no domingo. Elas saíram em Bagdá e Teerã, e nas cidades sagradas xiitas de Najaf e Karbala.

As principais autoridades de ambos os países se uniram às multidões de pessoas que batiam em seus peitos em homenagem ao comandante mais proeminente do Irã. E, à medida que a procissão fúnebre avançava de cidade em cidade, o governo de cada país começou a responder ao ataque americano.

A primeira medida veio do Iraque, onde o Parlamento aprovou uma resolução exigindo que tropas estrangeiras deixassem o país. A ação foi dirigida aos EUA, que têm cerca de 5 mil soldados no Iraque. Mas se os EUA realmente sairão é outra questão.

Políticos sunitas e curdos, ao contrário de seus colegas xiitas, querem que os americanos continuem vigiando o Estado Islâmico (EI) e treinando o Exército iraquiano. Desde 2014, os EUA gastaram quase US$ 6 bilhões em ajuda militar ao Iraque. A resolução, que não é obrigatória, diz que “se deve trabalhar para acabar com a presença de tropas estrangeiras no solo iraquiano e proibi-las de usar suas terras, espaço aéreo ou água por qualquer motivo”. A rapidez com que esse trabalho será feito dependerá de como o conflito irá se desenhar.

O Irã deu um passo que pode mostrar-se mais problemático. No domingo, afirmou que não iria mais cumprir nenhuma das restrições impostas pelo acordo assinado em 2015 com os Estados Unidos e outras cinco potências mundiais que limitaram seu programa nuclear.

“O Irã continuará seu enriquecimento nuclear sem limitações e com base em suas necessidades técnicas”, disse o governo, referindo-se ao processo de centrifugar urânio para obter seu isótopo com maiores condições de produzir fissão nuclear. O material pode ser usado para gerar energia ou, com maior pureza, uma bomba.

Desde que os EUA se retiraram do acordo nuclear em 2018, o Irã está revertendo seus compromissos firmados sob ele. O último anúncio abre caminho para violações mais graves, mas ainda não é uma corrida para uma bomba.

No verão passado, em resposta ao endurecimento das sanções americanas, o Irã violou os limites do acordo quanto à quantidade e pureza de urânio que ele teria permissão de manter. Agora, o Irã diz que vai ignorar os limites do número de centrífugas que pode acionar, removendo essencialmente todos os limites sobre o enriquecimento.

Mas a medida é “calibrada para ser reversível”, diz Wendy Sherman, ex-funcionária do Departamento de Estado que ajudou a negociar o acordo. De fato, Muhammad Javad Zarif, ministro das Relações Exteriores do Irã, disse que seu país reverteria o rumo se os EUA retornassem e defendessem o acordo. 

O Irã manteve para si um espaço para manobra. Não abandonou formalmente o pacto, o que alienaria os demais signatários. Também não se comprometeu em acelerar o enriquecimento. Mas, se as relações com os EUA se deteriorarem ainda mais, o Irã sinaliza que pode acumular mais urânio e enriquecer mais esse estoque a níveis próximos do necessário para produzir armas – passos que encurtariam seu caminho para uma bomba nuclear.

E não precisa parar por aí. As opções nucleares do Irã, por assim dizer, seriam expulsar os inspetores e retirar-se do Tratado de Não Proliferação, que proíbe o desenvolvimento de uma bomba atômica. “O passo dado fica longe disso”, diz Mark Fitzpatrick, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. “Isso deixa muito espaço, tanto para negociação como intensificação.”

Unidos, por enquanto

A morte de Suleimani tornou as autoridades iranianas mais resolutas e determinadas, depois de testadas pelos grandes protestos do fim do ano passado. O assassinato uniu a maior parte do país em luto público. Persas e árabes, adeptos da linha-dura e reformadores, islamitas e nacionalistas, todos foram às ruas.

Mesmo em Ahvaz, uma cidade árabe no sudoeste do Irã, onde a hostilidade em relação ao regime é profunda, milhares prestaram seus respeitos quando o caixão de Suleimani passou. “Morte aos Estados Unidos”, gritavam as multidões que enchiam a longa ponte que atravessava o Rio Karun. Tais exibições enchem os participantes do regime de confiança. “Acabou para os Estados Unidos no Oriente Médio”, disse um deles.

Longe das câmeras, porém, os iranianos discutiram sobre como se lembrar de Suleimani. Oficialmente, ele era o comandante da Força Quds, a legião estrangeira da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Mas ele deu um grande salto dentro da cadeia de comando do IRGC, reportando-se diretamente ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e foi considerado seu conselheiro mais confiável.

Nos cafés da Universidade de Teerã, alguns elogiaram o general como um soberano persa (khan), ou líder, que expandiu a influência do Irã e o salvou de ameaças externas, incluindo o EI. Sem ele, eles temem, o país ficará mais vulnerável. Sua ascensão a partir de origens humildes também inspirou os mais pobres.

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Outros acreditavam que Suleimani havia se tornado poderoso demais. Durante os protestos de 2018 e 2019, os iranianos criticaram seu aventureirismo no exterior. A morte de cerca de 1,5 mil manifestantes pacíficos pelo governo em novembro elevou a raiva contra o regime.

Alguns iranianos pediram que fosse negado um funeral público a Suleimani, como ocorrera a manifestantes assassinados. “A maioria acreditava que ele era contra o povo”, diz um palestrante em Teerã, que desejava que os iranianos, e não um míssil americano, o tivessem matado.

Khamenei já nomeou um sucessor: Esmail Ghaani, ao qual falta a estatura de Suleimani. A maioria dos comandantes do IRGC permanece fiel, mas alguns analistas acham que será mais difícil controlar oficiais ambiciosos. “Khamenei está mais sozinho que nunca e pode perder o controle sobre o Pasdaran”, diz Pejman Abdolmohammadi, da Universidade de Trento, na Itália, usando o nome persa do IRGC.

Alguns analistas preveem que, após a morte de Khamenei, que tem 80 anos, o próximo líder será um testa de ferro, com o IRGC dando as ordens. Mas é provável que muita coisa aconteça entre agora e depois. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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