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Antissemitismo cresce na Alemanha e assombra judeus

Aumenta assédio contra membros da comunidade judaica, apesar de medidas do governo para combater a perseguição

James Angelos, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2019 | 05h00

BERLIM - Uma das principais coisas que Wenzel Michalski se lembra de sua infância no sul da Alemanha nos anos 70 foi seu pai, Franz, lhe dando um conselho: “Não diga a ninguém que você é judeu”.

Franz, a mãe dele e o irmão caçula sobreviveram ao Holocausto ao viajarem para a Europa Central e se esconderem da Gestapo. Após o fim da guerra, suas experiências de volta à Alemanha sugerem que, apesar de os nazistas terem sido derrotados, o antissemitismo intrínseco à sua ideologia sobrevivera.

Recentemente, o filho de Michalski, Solomon, de 14 anos, que estudava em uma escola judaica em Berlim, quis ser transferido para uma escola pública com maior diversidade, onde ele “poderia ter amigos com nomes como Hassan e Ahmed”, disse sua mãe, Gemma.

Nos primeiros dias foi tudo bem com o menino que logo fez amizade com um colega de classe que lhe falou sobre um rapper alemão de origem turca. Solomon achou que os dois poderiam ser bons amigos. Mas no quarto dia, uma professora perguntou aos alunos onde eles rezavam. Um deles mencionou a mesquita, outro, a igreja. Solomon levantou o braço e falou sinagoga. Um silêncio tomou conta da classe e a professora perguntou porque sinagoga. “Sou judeu”, disse.

“Todos ficaram chocados”, contou Solomon à mãe. Após a aula, a professora lhe disse que ele era “muito corajoso”. No dia seguinte, o rapaz que ele acreditava que poderia ser seu melhor amigo lhe disse que na escola havia vários muçulmanos que usavam a palavra “judeu” como sinônimo de insulto. Solomon quis saber se o amigo se incluía no grupo. O rapaz colocou o braço sobre os ombros de Solomon e lhe disse que os dois não podiam ser amigos, pois judeus e muçulmanos não são amigos.

Logo, os colegas de classe começaram a fazer comentários antissemitas: “judeus são assassinos”, “estão apenas interessados no dinheiro”. Nos meses seguintes, Solomon começou a ser alvo de bullyings cada vez mais agressivos. Um dia, ao sair da padaria, um dos rapazes que o perseguiam apareceu com uma arma na mão, apontou para ele e puxou o gatilho. A arma era falsa, mas Solomon passou o maior susto de sua vida.

Em 2017, os Michalskis foram a público revelar sua história com o objetivo de provocar a necessária discussão sobre o antissemitismo nas escolas da Alemanha. Desde então, foram revelados dezenas de casos de bullying antissemita nos colégios.

Em entrevista ao jornal alemão Die Welt, o diretor da escola de Solomon disse que estavam se esforçando para resolver o problema. Questionado pelo repórter se o bullying ilustrava “o comportamento irrefletido dos jovens” ou “um enraizado antissemitismo”, o diretor disse que a pergunta era perigosa, mas respondeu: “É possível que o antissemitismo seja o motivo. Mas não podemos olhar dentro da cabeça desses estudantes”.

Para os Michalskis, tudo isso foi uma evidência de que a sociedade alemã realmente nunca abandonou o antissemitismo depois da guerra. Os alemães restauraram as sinagogas, construíram memoriais para as vítimas do Holocausto, disse Wenzel: “Para os líderes e a classe média isso significa, ‘fizemos isso, lidamos com o antissemitismo’, mas ninguém resolveu isso entre suas famílias”. 

Para Wenzel, “agora vários políticos conservadores dizem ‘os muçulmanos estão importando seu antissemitismo para nossa maravilhosa cultura anti-antissemita’. Isso é besteira. Estão tentando politizar (a questão)”.

A comunidade judaica na Alemanha não foi totalmente extinta. Após o regime nazista matar cerca de 6 milhões de judeus, mais de 20 mil judeus que tinham saído do Leste Europeu acabaram se instalando na Alemanha Ocidental, juntando-se aos cerca de 15 mil judeus alemães que haviam sobrevivido e permaneceram no país após a guerra. 

A nova classe política da Alemanha rejeita em discursos e nas leis o antissemitismo que foi a base do nazismo – medidas consideradas não apenas um imperativo moral, mas necessárias para restabelecer a legitimidade da Alemanha no cenário internacional. Essa mudança, no entanto, não refletiu uma imediata conversão nas antigas atitudes antissemitas no dia a dia. 

Atualmente, cerca de 200 mil judeus vivem na Alemanha, um país de 82 milhões de pessoas, e estão cada vez mais apreensivos. Em uma pesquisa realizada em 2018 pela União Europeia, 85% dos entrevistados na Alemanha disseram que o antissemitismo é um grande problema; 89% disseram que o problema tinha se agravado nos últimos cinco anos. 

Os crimes antissemitas na Alemanha tiveram um aumento de 20% no ano passado para 1.799, enquanto a violência contra os judeus aumentou 86%, para 69 casos. Estatísticas da polícia atribuem 89% dos crimes antissemitas a grupos de extrema direita. Mas os líderes da comunidade judaica contestam o relatório e muitos judeus alemães dizem que a origem é variada.

Pouco mais da metade dos judeus alemães que responderam à pesquisa da UE disseram que sofreram algum assédio antissemita nos últimos cinco anos e 41% deles afirmaram que o incidente foi provocado com alguém com uma ideologia muçulmana radical. / NYT

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