Anúncio de cessar-fogo do ETA divide espanhóis

O anúncio de cessar-fogo permanente da organização separatista basca ETA levou o prefeito socialista de San Sebastián (País Basco) a abrir uma garrafa de champanhe diante da imprensa em plena sede do governo. Mas para a principal entidade de vítimas do ETA, o comunicado não merece comemoração. O porta-voz da Associação de Vítimas do Terrorismo, Francisco Alcaraz, chamou a trégua de "armadilha dos que querem conseguir o que não obtiveram com mil mortos: a independência". A decisão de cessar-fogo, que começa oficialmente na próxima sexta-feira, dividiu os espanhóis. Características Poucos celebraram com o entusiasmo do prefeito de San Sebastián, Edon Elorza, mas a maioria reconheceu que o gesto do grupo separatista é histórico. "É uma boa notícia saber que podemos sair à rua, sem medo de que nos matem", disse Consuelo Ordoñez, porta-voz do Coletivo de Vitimas do Terrorismo no País Basco e irmã de um deputado conservador assassinado pelo ETA. O comunicado da organização tem três características que chamaram a atenção dos especialistas do Ministério do Interior e ajudam a acreditar que a trégua pode ser considerada confiável. Primeiro, o ETA seguiu o exemplo do IRA, anunciando um "cessar-fogo permanente", sem citar a palavra trégua. A mensagem, transmitida pela TV estatal basca, foi lida sem distorção por uma voz feminina. Além disso, nesta semana se cumpre o prazo de mil dias desde o último assassinato da organização. Os políticos espanhóis não se surpreenderam com o anúncio. No dia 17 de maio de 2005, o Parlamento aprovou em sessão plenária a abertura de conversações com o ETA, embora o primeiro-ministro José Luis Rodriguez Zapatero tenha afirmado que a condição indispensável seria o fim da violência e a entrega das armas. No comunicado desta quarta-feira a organização não impõe condições. Cita que "a superação do conflito é aqui e agora" e que quer que "os cidadãos bascos tenham palavra e decisão sobre seu futuro". Para essa "decisão" o ETA convocou os governos da Espanha, da França e da União Européia. O governo espanhol espera o próximo passo da organização, que deve ser anunciado na quinta-feira na aguardada lista de reivindicações. O governo da França comunicou oficialmente que esta é "uma questão de foro interno da Espanha" e a União Européia respondeu que o único interlocutor nessa discussão é o governo espanhol. Reivindicações Nas esperadas reivindicações, segundo fontes do Ministério do Interior, estão a aprovação de um plebiscito no País Basco para que a população vote se quer ou não a independência e a situação dos presos do ETA, incluindo negociações sobre anistias e reduções de penas. O plebiscito é inconstitucional e só pode ser realizado por aprovação extraordinária do Parlamento nacional. Sobre os presos, a Associação de Vitimas do Terrorismo já se pronunciou contra. "Não são presos comuns, são assassinos", disse o porta-voz Alcaraz. O ETA, sigla basca de Euskadi Ta Askastasuna (Pátria Basca e Liberdade), existe desde 1959. Foi formado por um grupo que se reunia na clandestinidade para estudar o idioma local, proibido pelo ditador Francisco Franco. Nos anos 70, o grupo se dividiu entre o braço político e o militar. A partir daí, começaram os atentados; o primeiro foi o assassinato do então presidente Carrero Blanco. Entre outros políticos, o grupo atentou contra o ex-primeiro-ministro José Maria Aznar, que se salvou porque estava em um carro blindado.

Agencia Estado,

22 Março 2006 | 18h22

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