Ao comparar guerras, Bush faz analogias erradas

A retirada americana do Vietnã é lembrada como o fim desonroso de uma guerra sem rumo, mas com poucas repercussões negativas para os EUA. Agora, ao insistir que os americanos devem manter o curso no Iraque, o presidente George W. Bush está contradizendo essa memória histórica.Ao lembrar que a retirada, em 1975, foi seguida por anos de tumultos sangrentos no Sudeste Asiático, Bush disse que as lições do Vietnã dão razão para que os EUA não se retirem do Iraque. Basicamente, Bush acusou os críticos da guerra atual de esquecerem o êxodo de refugiados vietnamitas e as matanças em massa no Camboja.O presidente Bush está certo no registro factual, segundo os historiadores. Mas muitos contestaram as analogias que ele traçou das causas da retirada do Vietnã para prever o que poderia acontecer no Iraque. "É verdade que o fracasso no Vietnã trouxe conseqüências catastróficas, especialmente no Camboja", disse David Hendrickson, historiador americano do Colorado College. "Mas alguns pontos precisam ser ponderados, um deles é que o Khmer Vermelho jamais teria chegado ao poder sem a Guerra do Vietnã. A mesma coisa acontece hoje no Oriente Médio. A ocupação do Iraque criou mais terroristas."A maioria dos historiadores lembra que a retirada do Vietnã não foi abrupta. Ela começou em 1968, depois da Ofensiva do Tet, episódio que ilustrou a vulnerabilidade dos EUA.Embora os comandantes americanos tenham pedido centenas de milhares de reforços após o Tet, o presidente Lyndon Johnson não os atendeu. Logo depois, o presidente Richard Nixon iniciou a "vietnamização" da guerra, transferindo a responsabilidade pela segurança gradualmente para forças locais - semelhante à estratégia de longo prazo de Bush para o Iraque. "Não foi uma retirada precipitada, foi um desengajamento deliberado", lembrou Andrew Bacevich, professor de relações internacionais da Universidade de Boston. Bush também tentou renovar o apoio a sua estratégia no Iraque recordando os anos de sacrifício durante a 2ª Guerra Mundial e o compromisso com a reconstrução da Alemanha e do Japão, que tornaram-se aliados confiáveis. Porém, os historiadores apontam que Alemanha e Japão eram Estados homogêneos, sem nenhum conflito interno entre facções ou seitas, em absoluto contraste com o Iraque de hoje.VIETNÃ x IRAQUESEMELHANÇAS Combatente sem rosto: o fanático religioso é o vietcongue de Bagdá: os EUA não sabem quem é o inimigo Capacidade militar: número de soldados em ação atingiu o limite dos EUA nos dois casosDIFERENÇAS Economia: a guerra no Vietnã foi ideológica. No Iraque, o petróleo também move o conflito Baixas: foram 58 mil americanos mortos no Vietnã. No Iraque, cerca de 4 mil

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