Ao estilo da Guerra Fria, EUA e Rússia fazem maior troca de espiões desde 85

Barganha secreta. Dez agentes russos que haviam sido presos duas semanas atrás pelo FBI e quatro pessoas que passaram informações à inteligência americana são ''trocados'' na pista do aeroporto de Viena; Justiça dos EUA diz que ''operação foi um sucesso''

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

Após um acordo sigiloso, os EUA e a Rússia realizaram ontem em Viena a maior troca em 25 anos de espiões presos. Foram libertados dez agentes secretos de Moscou e quatro de Washington em uma cena comparável aos tempos da Guerra Fria.

Os aviões levando os prisioneiros aterrissaram na capital austríaca e a troca ocorreu na própria pista do aeroporto. Em seguida, a aeronave que levava os agentes a serviço da Rússia seguiu para Moscou. Os acusados de espionar para os americanos - todos russos - partiram para uma base dos EUA na Grã-Bretanha. À noite, chegaram a Washington

Na pista, os agentes foram transferidos de um avião para o outro em vans pretas. Não há informações dos agentes dos EUA que chegaram à Grã-Bretanha. Os russos desembarcaram ontem mesmo em Moscou e foram levados para uma localidade não divulgada pelo Kremlin. O Departamento de Justiça dos EUA publicou uma nota afirmando que a operação foi um sucesso.

A última troca dessa dimensão ocorreu em 1985, quando 23 prisioneiros foram trocados em uma ponte em Berlim (mais informações nesta página).

Confissões. Os dois governos não divulgaram como foi conduzida a negociação. Mas, segundo a Associated Press, o acordo já vinha sendo discutido havia dez meses, ou antes mesmo de o FBI prender os dez agentes russos. Moscou e Washington buscaram evitar que o caso levasse à deterioração nas relações dos dois países, que tinham piorado após a guerra da Geórgia, em 2008.

Na quinta-feira, os dez acusados de espionagem confessaram o crime de "conspiração". Alguns deles também respondiam por lavagem de dinheiro. Mas a promotoria, seguindo orientação da Casa Branca, retirou as acusações. Todos estão proibidos de retornar aos EUA sem a autorização do Departamento de Justiça. Os agentes receberam o direito de levar seus filhos, apesar de as crianças não terem sido transferidas ontem.

Moscou concordou em libertar os agentes que estariam a serviço dos EUA. Alguns deles cumpriam pena havia anos. O presidente Dmitri Medvedev perdoou ainda outros 16 acusados de espionagem. Apenas um deles não era cidadão russo.

PARA LEMBRAR

Há 25 anos, URSS devolveu 23 agentes

A troca de espiões russos e americanos ocorrida ontem é a maior desde 1985, quando o bloco comunista aceitou "devolver" 23 pessoas aos EUA. Em troca, Washington libertou quatro agentes secretos da Europa Oriental.

O desequilíbrio no número de agentes repatriados de cada lado tem uma explicação: a transação envolveu Marian Zacharski, considerado o maior espião polonês. Ele havia revelado segredos de aeronaves e sistemas de radares desenvolvidos pelos EUA. Em 1996, o ex-agente polonês fugiu para a Suíça, desaparecendo sem deixar vestígios.

Como agora, Washington e Moscou realizaram a troca em território europeu. Em 1985, a permuta foi feita na Ponte Glienicke, em Berlim Oriental, perto do muro que separava os dois lados da cidade.

John L. Martin, funcionário do Departamento de Justiça dos EUA que supervisionou 76 trocas de espiões com Moscou durante a Guerra Fria, disse ter ficado surpreso com a rapidez do acordo. Os dez agentes russos nem sequer foram condenados e ficaram pouco mais de uma semana presos. A negociação para troca do piloto americano Francis Garry Powers pelo agente da KGB Rudolf Abel, por exemplo, levou anos. Um dos casos mais significativos, Powers e Abel foram trocados em 1962, também em Berlim Oriental. Abel havia sido condenado 12 anos antes nos EUA por tentar roubar segredos nucleares. Powers pilotava um avião-espião U-2 sobre a URSS, quando foi abatido, em 1960.

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