Ao fim da revolta, a incerteza se estabelece

Vários países afetados pela primavera árabe agora enfrentam a perspectiva de impasse, conflitos prolongados ou vazio de poder que poderão torná-los ingovernáveis

Anthony Shadid, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

O idealismo das revoltas no Egito e na Tunísia, onde o poder das ruas revelou a fragilidade da autoridade, reviveu um mundo árabe antecipando mudanças. Mas a revolução inacabada na Líbia, tão inspiradora quanto desestabilizadora, ilustra o quanto essa mudança se tornou perigosa na atual fase da primavera árabe.

Embora a bandeira dos rebeldes tenha sido hasteada em Trípoli, sua liderança é dividida e opaca; as intenções e influência dos islâmicos em suas fileiras são incertas; Muamar Kadafi continua numa fuga que lembra, no geral, a de Saddam Hussein; e estrangeiros envolveram-se na luta no tipo de intervenção que desde há muito tem sido tóxica para o mundo árabe. Para não mencionar, é claro, que muitos jovens estão em posse de uma profusão de armas.

Nenhum levante compara-se com outros, mas as complexidades da Líbia trazem ecos das revoltas em Bahrein, Síria e, sobretudo, Iêmen, sugerindo que a transição prolongada de países árabes para uma nova ordem poderá ser tão tumultuosa para a região quanto o momento do Egito foi eletrizante.

Diferentemente do início do ano, quando o ímpeto revolucionário parecia incontrolável, a incerteza é muito mais acentuada hoje, quando vários países enfrentam a perspectiva de impasse, conflitos prolongados ou vazios de poder que poderão torná-los ingovernáveis.

No Iêmen, por exemplo, militantes islâmicos encontraram refúgio. Por toda a região, as repercussões dos levantes estão colidindo com os pressupostos do antigo sistema apoiado pelos EUA: controle do petróleo, influência de uma Arábia Saudita reacionária, trégua árabe-israelense, e manutenção da ordem à custa da liberdade numa região que, durante décadas, foi, ao menos superficialmente, uma das mais estáveis do mundo.

Só nesta última semana, Kadafi perdeu Trípoli; os EUA e países europeus pediram a saída do presidente sírio, Bashar Assad; o presidente do Iêmen, ainda se recuperando de queimaduras sofridas num ataque, prometeu voltar ao país; e a relação entre Egito e Israel descambou numa crise, para o júbilo de muitos egípcios que viam um governo mais assertivo como um resultado positivo da saída de Hosni Mubarak.

"Haverá uma transferência de poder em nossas sociedades, e uma nova ordem começou a tomar forma na região", disse Michel Kilo, uma figura de oposição na Síria.

Israel já começou a enfrentar o que temia que as revoltas poderiam desencadear: políticas externas no mundo árabe que refletem o profundo ressentimento popular com o sofrimento dos palestinos. Os islâmicos mais puritanos, conhecidos como salafitas, emergiram como uma força no Egito, Líbia e Síria, havendo suspeitas de que a Arábia Saudita os encorajou e financiou. Alianças começaram a ser redesenhadas: a crescente parceria de Tunísia e Síria rompeu-se com a feroz repressão de Assad, que provocou uma condenação internacional, mas não mostra sinais de esgotamento.

Reconstrução. Como em todas as revoluções, a queda dos líderes será vista como o passo mais fácil de uma longa, árdua e dolorosa luta pela reconstrução. "A questão do governo sucessor na Líbia vai ser mais difícil que expulsar o velho governo", disse M. Cherif Bassiouni, um especialista em direito internacional que chefiou comissões de direitos humanos no Bahrein e na Líbia.

Nada parece garantido nestes dias, nem no Egito e na Tunísia, e as conversações sobre os levantes com frequência mencionam a Revolução Francesa, que precisou de longos anos para desembocar em uma nova ordem. Ninguém fala em termos de meses após essas revoltas, por causa das as forças sísmicas em jogo, do fortalecimento dos islâmicos ao trauma econômico.

"Estamos caminhando para o desconhecido", disse Talai Atrissi, um analista político no Líbano. "A próxima era testemunhará batalhas e conflitos entre atores dentro de países inclinados a se esmagarem mutuamente e prover sua existência na cena política. Ela será cheia de desafios, grande e severa", acrescentou.

Júbilo. Por mais imprevisível que a revolução líbia possa se mostrar, ela continua despertando júbilo por toda a região. O acuado governo do Iêmen inundou a capital com tropas no fim de semana passado para impedir novas demonstrações inspiradas pela queda de Kadafi. Na TV Al-Jazira, imagens do líder líbio foram intercaladas com linhas de uma canção tocada durante as revoltas no Egito e na Tunísia: "Eu sou o povo, o povo de honra e luta", cantava Um Kalthoum, uma antiga diva egípcia. Em Damasco, um ativista viu os destinos entrelaçados de Assad e Kadafi, que. numa mensagem desafiadora transmitida na quarta-feira, chamou o povo que o derrubou de ratos e traidores.

"Não queremos um fim misericordioso para Kadafi e seus filhos", disse Aziz al-Arabi, um sírio de 30 anos. "Por favor, mantenham-no vivo.

Adoraríamos vê-los humilhados." Por toda a região, jovens que impulsionaram as revoltas compartilharam tanto o vocabulário quanto as táticas. "Irhal" ou "Fora" vazou do Egito para Iêmen e Bahrein, onde, nas ruas de Sitra, repletas de pedras dos confrontos com a polícia, manifestantes a tornaram plural - eles querem a saída não só do rei, mas da família dele também.

O mundo árabe está envolvido agora em três revoluções (Tunísia, Egito, Líbia) e três revoltas completas (Síria, Iêmen, Bahrein). "Às vezes, a instabilidade é um mal necessário, e precisamos dela para alcançar a estabilidade. Desalojar um ditador brutal vai requerer derramamento de sangue", disse Shadi Hamid, diretor de pesquisa no Brookings Doha Center, um projeto do Sabban Center for Middle East Policy da Brookings Institution.

Por enquanto, a revolução líbia parece a mais incerta. Mesmo agora, paralelos estão sendo traçados com a queda de Saddam Hussein, que lançou uma longa sombra antes de ele ser capturado num país cujas divisões se aprofundavam e depois mergulhou numa guerra civil.

"Alguns comparam a Líbia pós-Kadafi com o Iraque pós-Saddam", escreveu Bashir al-Bakr no jornal libanês de esquerda Al-Akhbar. "Os líbios, segundo essa visão, não se encarregarão de suas próprias decisões. Eles se verão manietados por compromissos pesados, e não terão a habilidade para escapar deles no presente." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM BAGDÁ

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