Ao lado de Evo, Scioli joga futebol para ganhar votos

Simpatizantes kirchneristas eram maioria no ginásio

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 18h59

Na partida de uma hora entre o combinado boliviano de Evo Morales e o time de Daniel Scioli, o Villa La Ñata, torcedores eram minoria no ginásio lotado no município de Tigre, na Grande Buenos Aires. A maior parte deles, localizados atrás das duas traves, era a claque que dá volume aos comícios formais kirchneristas. Viajam em ônibus pagos por sindicatos aliados do governo e recebem alimentação. Menos fiéis ao esporte e mais à política, animam no primeiro tempo e deixam o ginásio, construído por Scioli ao lado de sua casa, assim que a maior parte dos jornalistas sai. 

Nas paredes do centro esportivo, cartazes de campanha de Scioli dividem espaço com fotos da época de piloto. Em duas tribunas, estátuas de líderes mundiais que Scioli admira “assistem” ao jogo. No bar que alimenta os frequentadores, um cartaz laranja alerta a quem não tem dinheiro com a usual mensagem: “Não vendemos fiado...” O complemento, em uma brincadeira que sugere quem manda no lugar é: “...exceto para o governador e seus amigos”.

O Villa La Ñata, que disputa a primeira divisão de futsal do campeonato argentino, enfrenta clubes tradicionais como Boca Juniors e River Plate. Nestes jogos, diminuem os militantes pagos, Scioli não fica tanto tempo em quadra, nem marca tantos gols. Contra o grupo de Evo, fez oito. O jogo terminou 16 a 12 para os locais, motivo de júbilo para o locutor, que narrava em um potente sistema de som a partida em função da movimentação de Scioli, sem citá-lo pelo nome. Recorria apenas ao apelido: “O Artilheiro”.

“Como não era valendo, Scioli e Evo tiveram liberdade para marcar gols”, confessou um dos companheiros de time do presidenciável, Facundo Iribarne, de 21 anos. Ele admitiu o óbvio. Quando um dos dois políticos tinha a bola, seu marcador ficava lento e errava o desarme de forma caricata. Iribarne disse que os salários são pagos pela propaganda bancada por patrocinadores interessados em investir no time de um possível presidente da república. O salário médio é de 7 mil pesos (R$ 2.900), o que leva alguns dos jogadores a ter um segundo emprego. “Dentro da quadra, Scioli é um jogador a mais. Fora, respeitamos como um presidente”, afirmou Iribarne. 

“Pode ser que ele ganhe votos das pessoas que vêm apoiar o time. Muitos dizem que o time é dele, mas ele só dá uma mão. O time começou bem de baixo, mas foi ajudado um pouco pela política”, disse Federico Carnevale, de 33 anos, um dos torcedores de verdade do Villa La Ñata, que levou a filha Isabela, de 2 anos, para comer hambúrguer e ver a noite de Evo e Scioli.

O argentino tem uma jogada típica. Grudado à trave esquerda, ele espera que os companheiros atraiam a marcação e passem a bola quando está livre. Assim como Evo, ele sempre define com a esquerda.

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