Ao lado do Egito

Grande questão hoje é de que lado está o Exército egípcio: do lado de Mubarak ou do povo na Praça Tahrir?

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2011 | 00h00

Justo quando pensávamos que as revoltas no Egito estavam perdendo força, um número de egípcios nunca antes visto formou longas filas na terça-feira para entrar na Praça Tahrir e pedir o fim do regime do presidente Hosni Mubarak. As filas são tão longas porque todos precisam passar por um único posto de controle improvisado pelo Exército, que consiste num tanque de um lado e um pouco de arame farpado no outro.

Nunca sei se o tanque está ali para proteger os manifestantes ou para limitar a sua ação. E talvez esta seja a pergunta mais importante no Egito hoje: de que lado está o Exército? No momento, o respeitado Exército egípcio está se mantendo neutro - protegendo tanto o palácio de Mubarak quanto os revolucionários da Praça Tahrir -, mas essa situação não pode durar.

O Exército pode se aliar a Mubarak, cuja única estratégia parece ser ganhar tempo e torcer para que a revolta perca força. Mas o Exército pode perceber que os acontecimentos na Praça Tahrir representam a onda do futuro. Assim, se o Exército quiser manter seus consideráveis privilégios, a instituição deve obrigar Mubarak a tirar férias e estabelecer a si mesma como fiadora de uma transição pacífica na direção da democracia.

Torço por essa última alternativa, e espero que o presidente Barack Obama pressione o Exército do Egito nessa direção. Para que isso ocorra, tanto o Exército quanto a equipe de Obama terão de ler os acontecimentos que se desenrolam na Praça Tahrir sob um novo prisma. Mubarak quer que todos acreditem que se trata de uma repetição do Irã de 1979, mas a impressão que a situação transmite é outra. Essa revolta parece ser pós-ideológica.

O levante da Praça Tahrir "nada tem a ver com esquerda e direita", disse Dina Shehata, pesquisadora do Centro Al-Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos. "Trata-se de jovens se rebelando contra um regime que sufocou todos os canais de sua mobilidade social ascendente."

Qualquer grupo ideológico que tente sequestrar essa juventude hoje sairá perdedor. Uma das análises mais interessantes sobre o que está ocorrendo está num livro de 2009 chamado Generation in Waiting (algo como Geração à Espera), editado por Navtej Dhillon e Tarik Yousef, que examinava o amadurecimento dos jovens em oito países árabes. O livro sugere que o grande jogo que se desenrola atualmente no mundo árabe não está relacionado ao Islã político, e sim a um "jogo das gerações" no qual mais de 100 milhões de jovens árabes estão se batendo contra sufocantes estruturas econômicas e políticas que lhes privaram de toda a liberdade.

É por isso que essa revolta envolve principalmente um povo cansado de ser deixado para trás num mundo no qual é possível ver claramente o quanto os outros avançaram.

De fato, não surpreende que o porta-voz que emergiu desse levante seja Wael Ghonim, um executivo egípcio do Google. Ele abriu uma página no Facebook chamada "Somos todos Khaled Said", nome de um ativista que teria sido espancado pela polícia até a morte em Alexandria. E essa página ajudou a incentivar os primeiros protestos. "Temos uma voz neste país. Esse não é o momento para o conflito de ideias. É hora de entoarmos juntos um único canto", disse Ghonim. É isso o que torna a revolta atual tão interessante. Os egípcios não estão lutando pela Palestina ou por Alá. Eles estão pedindo a chave do seu próprio futuro, que foi confiscada por Mubarak. A inspiração do movimento não é um "abaixo" os EUA e nem um "abaixo" Israel. Em vez disso, sua inspiração é "viva o Egito" e "viva os egípcios". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITOR

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