Nicolas Asfouri/AFP
Nicolas Asfouri/AFP

Ao rejeitar lockdowns, países buscam novas formas de evitar avanço do vírus

Perto de duas marcas globais significativas – meio milhão de óbitos e 10 milhões de casos –, governos que pareciam ter controlado a pandemia desistem da estratégia de acabar com a covid-19 e buscam conviver com a doença até uma vacina 

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2020 | 22h03

NOVA YORK - Bem perto da marca global de 500 mil mortos e 10 milhões de infectados, vários países do mundo, que pareciam ter controlado a pandemia, agora tentam se adaptar à realidade de que o coronavírus veio para ficar. Ao rejeitarem novos lockdowns, governos buscam maneiras de frear o avanço da covid-19 e evitar uma nova onda de contaminações.

 “O coronavírus estará sempre conosco”, disse Simon James Thornley, epidemiologista da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia. “Não acho que conseguiremos eliminá-lo no longo prazo. Teremos de aprender a conviver com a covid-19.”

A China passou a testar funcionários de restaurantes e entregadores de comida em cada quarteirão. A Coreia do Sul pede às pessoas para saírem de casa com dois tipos de máscaras para diferentes situações sociais. A Alemanha recomenda que os governos locais ajam com rigor quando o número de infecções atingir o limite. 

Embora os detalhes sejam diferentes, as estratégias são parecidas: dar mais flexibilidade para autoridades locais decidirem sobre medidas de isolamento, testes, monitoramento e controles de fronteiras, além de lembrar aos cidadãos constantemente dos perigos do contato humano.

Essa nova fase significa que governos centrais e locais devem compartilhar dados e trabalharem juntos. A mudança de estratégia é uma admissão de que não existe vitória contra a covid-19 até que seja encontrada uma vacina. E evidencia também o desafio de países como EUA, Brasil e Índia, onde as autoridades não conseguiram controlar a pandemia e o coronavírus continua a se propagar. 

Mesmo em lugares onde a covid-19 parecia estar controlada, ainda há risco de surtos. Em Tóquio foram registradas 253 novas infecções na semana passada, 83 em um bairro boêmio. Em Gutersloh, na Alemanha, mais de 1,5 mil trabalhadores de um frigorífico testaram positivo, levando as autoridades a fechar dois distritos. A Coreia do Sul, outro exemplo de resposta rápida à pandemia, anunciou dezenas de infecções nos últimos dias.

Em Roma, que recentemente saiu de um dos mais rigorosos lockdowns da Europa, 122 pessoas foram internadas no hospital San Raffaele Pisana. Vários dias depois, 18 moradores de um imóvel cujos banheiros eram compartilhados contraíram a doença. “Logo que baixamos a guarda, o vírus contra-atacou”, disse Paolo La Pietra, dono de uma tabacaria do mesmo bairro.

Agilidade

Alguns países, como Coreia do Sul e Japão, tentam responder mais rápido. O governo sul-coreano qualificou sua estratégia como “quarentena da vida cotidiana”. O país nunca implementou um lockdown muito rigoroso e as medidas de distanciamento social continuam a ser apenas recomendações à população. 

No entanto, o país estabeleceu um teto de 50 infecções novas por dia – que as autoridades dizem que o sistema de saúde consegue absorver. As autoridades mudam as regras quando necessário. Depois de uma segunda onda de infecções em Seul, o município determinou que as pessoas usassem máscaras no transporte público e fechou repartições por duas semanas.

O governo sul-coreano vem adicionando novas diretrizes à medida que aprende mais sobre a epidemia. As empresas, por exemplo, são aconselhadas a manterem os funcionários sentados em ziguezague. Os aparelhos de ar-condicionado devem ser desligados a cada duas horas para aumentar a ventilação do ambiente. Além disso, a cantoria nos mercados e em locais públicos vem sendo desencorajada.

O Japão, que estabeleceu apenas lockdowns limitados, também deseja manter limites mais brandos para impulsionar a economia. E vem analisando a permissão de entrada de turistas de Austrália, Nova Zelândia, Tailândia e Vietnã. “Não podemos manter nossas fronteiras fechadas por muito tempo”, disse o premiê, Shinzo Abe.

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Na semana passada, o Japão lançou um aplicativo de monitoramento que alerta quando os usuários entram em contato com alguém que testou positivo para o coronavírus nos últimos 14 dias. As empresas que operam linhas de metrô e trens suburbanos lançaram um aplicativo para informar se há aglomeração nos vagões.

A China vem aprendendo a flexibilizar seus métodos mais draconianos. No início da pandemia, o governo isolou dezenas de milhões de pessoas em Wuhan e em torno da Província de Hubei. Agora, preocupados com os prejuízos econômicos, os chineses adotaram restrições mais brandas. Em Pequim, os moradores podem tirar as máscaras quando estiverem ao ar livre e a verificação de temperatura é menos generalizada.

Em 12 de junho, Pequim anunciou que 53 pessoas testaram positivo. Em vez de isolar a capital, as autoridades fecharam um mercado, os bairros em torno dele e mobilizaram 100 mil funcionários para examinar 2,3 milhões de moradores em uma semana. “Uma cidade tão grande não pode ficar para sempre na defensiva como se fosse uma guerra”, disse Mao Shoulong, professor de políticas públicas da Universidade Renmin, em Pequim.

No Reino Unido, a responsabilidade também é compartilhada. Autoridades da saúde de Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte são agora responsáveis por suas próprias estratégias de contenção. Na Inglaterra, onde os governos locais se queixam da falta de testes para detectar o vírus, empresas e administradores de edifícios assumiram a tarefa de monitorar as infecções e de responder aos surtos.

Controlar o vírus exige saber onde ele está, o que é especialmente difícil no caso de uma doença em que os sintomas são leves em 80% dos casos. Diversos especialistas afirmam que aprenderam mais sobre os surtos pelo noticiário. O nível de detalhes que as autoridades precisam para decidir fechamentos localizados – como o CEP dos infectados, por exemplo – ainda é um mistério. 

“Toda pandemia começa como um surto local”, afirmou Lincoln Sargeant, diretor da divisão de saúde pública do condado de North Yorkshire. “Precisamos de informações detalhadas e em tempo hábil.” / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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