Cenário: Ao visitar a Califórnia calcinada, Trump se depara com realidade que insiste em negar

Cenário: Ao visitar a Califórnia calcinada, Trump se depara com realidade que insiste em negar

Um presidente que zombou da mudança climática e aprovou medidas que a aceleram teve a visão da terra queimada e dos céus cobertos de cinzas que, segundo  os especialistas, são o resultado previsível

Michael D. Shear e Coral Davenport / The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 21h38

WASHINGTON – Quando o presidente Donald Trump sobrevoou a Califórnia de avião para avaliar os incêndios que devastaram as florestas do Estado, ele se defrontou com as tenebrosas consequências de uma realidade que teima em recusar-se a aceitar: os efeitos devastadores de um planeta que está se aquecendo.

Para a comunidade científica global, os hectares de terra calcinada e os céus cobertos de cinzas em todo o Oeste americano são o trágico, mas previsível resultado da aceleração da mudança climática. Há cerca de dois anos, os cientistas do governo federal concluíram que as emissões dos gases do efeito estufa produzidas pelos combustíveis fósseis poderão triplicar a frequência de graves incêndios em todos os Estados do Oeste.

No entanto, o presidente, que ocupa o cargo mais alto da nação, tem-se dedicado a promover de maneira agressiva a queima dos combustíveis fósseis, principalmente com a revogação ou o enfraquecimento de todas as principais medidas federais que combatiam as perigosas emissões. Ao mesmo tempo, Trump e seus funcionários na área do meio ambiente insistem em zombar, negar ou minimizar a ciência consagrada da mudança climática causada pelo homem.

Agora, na luta para a obtenção de um segundo mandato na Casa Branca, Trump intensificou o seu programa contra a questão do clima a fim de apelar para os seus ferrenhos apoiadores. Em um comício na Pensilvânia, no mês passado, ele criticou o fato de a Califórnia não ter “limpado do chão” as folhas, ameaçando “fazer com que eles paguem por não me darem ouvidos”.

Os incêndios letais que se espalham pelo Oeste – como o coronavírus que devasta o país há meses – são uma advertência para o presidente do fato de que muitos eleitores poderão considerá-lo responsável, juntamente com a sua administração, por desprezar os especialistas e os cientistas e por não mobilizar efetivamente o governo a fim de minimizar os desastres naturais que mataram pessoas, danificaram propriedades e ameaçaram a prosperidade econômica.

“Fale com um bombeiro se achar que a mudança climática não é real”, disse o prefeito Eric. M. Garcetti, de Los Angeles, que apoia o ex-vice-presidente Joe Biden, o adversário democrata do presidente, no programa Estado da União, da CNN, no domingo. “Parece que este governo é  o último vestígio da Sociedade da Terra Plana desta geração.”

A atuação de Trump em relação ao clima é muito mais agressiva do que a política ambiental do laissez-faire, promovida durante anos pelos interesses empresariais do seu partido. Na realidade, enquanto ele procura zelosamente revogar as regulamentações, algumas das maiores companhias petrolíferas e das grandes indústrias automotivas do mundo opuseram-se às suas decisões, afirmando que levarão a anos de incerteza legais na realidade com o possível efeito de prejudicar os seus lucros.

“Como figura histórica, ele é um dos maiores culpados dos EUA por contribuir para o sofrimento e as mortes que estão ocorrendo atualmente na tragédia relacionada ao clima", afirmou Jerry Brown, o ex-governador da Califórnia que fez da mudança climática sua principal preocupação política, em uma entrevista, no domingo, embora tomando o cuidado de não culpar especificamente Trump pelos incêndios que devastam o seu Estado.

A atuação do presidente é também a mais importante, afirmam especialistas, porque a quantidade de dióxido de carbono que produz o aquecimento do planeta aprisionada na atmosfera terrestre agora passou do ponto em que os cientistas afirmam que seria possível evitar muitos dos piores efeitos do aquecimento global – mesmo que sejam aplicadas severas políticas contra as emissões.

A campanha presidencial de Biden espera usar as posições de Trump em relação ao clima como arma contra ele, juntamente com republicanos moderados e independentes. Christine Todd Whitman, ex-governadora republicana de New Jersey, apoia a candidatura de Biden em grande parte por causa da política ambiental do presidente.

“É espantosa a ignorância que ele demonstra neste tema”, disse a ex-governadora em uma entrevista no domingo. “Ele não compreende a mudança climática. Não acredita fundamentalmente na ciência. Só se preocupa consigo mesmo e com a reeleição”. “Ele não governa para todos os americanos”, afirmou.

No sábado, Trump abruptamente incluiu a viagem a McClellan Park, na Califórnia, perto de Sacramento, para informar-se a respeito dos incêndios em uma mudança da campanha em que estava marcado um evento para o levantamento de fundos na Costa Oeste. Ele foi alvo de intensas críticas durante as semanas de silêncio a respeito do fogo cada vez mais letal que está consumindo partes da Califórnia, Oregon e Washington – três Estados governados por democratas que combate há anos.

Funcionários da Casa Branca informaram que em 2018 Trump assinou um decreto minimizando o risco de incêndios florestais, e instou a Califórnia e outros Estados a melhorar o manejo das florestas.

“Outros países do mundo estão obcecados pelo acordo do clima de Paris, que escraviza as economias, e nada fez para reduzir as emissões dos gases do efeito estufa, enquanto os da esquerda radical pressionam pelo Green New Deal, que proibiria gado, automóveis e aviões do planeta”, disse Judd Deere, um porta-voz da Casa Branca. Segundo ele, Trump adotou “políticas simples que mantiveram o nosso ar, água e o ambiente limpos”.

O presidente continuou mantendo sua visão sombria da ciência ao longo de todo o mandato, embora o governo do qual é líder tenha reforçado as ameaças aceitas ao futuro do planeta.

Em 2017 e 2018, o governo federal publicou um amplo relatório científico em dois volumes, a Avaliação Nacional do Clima, que representa as conclusões mais autorizadas e abrangentes até o momento, sobre as causas e os efeitos da mudança climática nos Estados Unidos.

O relatório é claro a respeito das causas – a queima de combustíveis fósseis – e dos efeitos: Ele conclui que o aumento da seca, as inundações, as tempestades e a intensificação dos incêndios florestais causados pelo aquecimento do planeta poderão encolher a economia americana em até 10%, até o fim do século.

Dois dias antes de a Casa Branca publicar o volume de 2018 do relatório, Trump tuitou em tom de zombaria: “Uma Brutal e Ampla Onda de Frio poderá destruir TODOS OS REGISTROS – O que aconteceu com o Aquecimento Global?”

Um mês antes, ele falou em uma entrevista sobre aquecimento global: “Não sei se é provocado pelo homem”, e sugeriu que, mesmo que o planeta aqueça, “voltará a mudar” – ideia que os cientistas ridicularizam há muito tempo.

Trump também lotou o seu governo com funcionários de alto escalão que abertamente questionam a ciência básica da mudança climática. A Agência Nacional Oceânica e Atmosférica, que orienta a pesquisa científica sobre a mudança climática, este ano contratou como vice-secretário assistente David Legates, um cientista da Universidade de Delaware que questiona o aquecimento global causado pelo homem. A contratação de Legates foi noticiada inicialmente pelo NPR (a Rádio Nacional).

William Happer, ex- assessor sênior da Casa Branca e físico de Princeton, que ganhou notoriedade na comunidade científica por declarar que o dióxido de carbono é benéfico para a humanidade, inaugurou uma iniciativa no ano passado para garantir que a próxima Avaliação Nacional do Clima não inclua os piores cenários. Embora Happer tenha saído do governo no ano passado, essa iniciativa continua vigorando, segundo três pessoas a par do assunto.

E o primeiro indicado de Trump para chefiar a Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt, declarou no início do seu mandato que o dióxido de carbono não é a principal causa do aquecimento global, afirmação que se opõe diretamente ao consenso científico. “É interessante fazer os paralelos entre a covid e a mudança climática”, observou Philip B. Duffy, presidente do Centro Woodwell de Pesquisa do Clima, que fez parte do painel da Academia Nacional de Ciências na revisão da Avaliação Nacional do Clima. “Em ambos os casos, Trump se recusou a reconhecer a ameaça.” “Em ambos os casos, não há nenhum plano para tratar da crise”, acrescentou.

Além disso, Trump desmantelou persistentemente o plano de mudança climática que já estava vigorando, tirando efetivamente a autoridade do governo federal para fazer o que quer que seja para reduzir a poluição dos gases do efeito estufa.

“No fim do governo Obama, nós dispunhamos do primeiro regime regulador de abrangência federal sobre o clima”, disse David G. Victor, diretor do Laboratório de Lei e Regulamentação Internacional da Universidade da Califórnia, em San Diego. “O governo Trump, tratou ativamente de revogá-lo na maior parte."

Nos primeiros meses no cargo, Trump anunciou que retiraria os Estados Unidos do acordo do clima de Paris, de 2015, no qual praticamente todos os países do mundo prometeram reduzir as emissões da poluição que aquece o planeta.

Internamente, Trump orientou Andrew Wheeler, atual diretor da Agência de Proteção Ambiental, a desmantelar uma série das principais regulamentações sobre a mudança climática instituídas pelo governo Obama, que se destinavam a acabar com a poluição provocada pelas três principais fontes de emissões do efeito estufa: as usinas elétricas movidas a carvão, os escapamentos dos automóveis, e os locais de exploração de petróleo e gás.

Essas normas representavam o primeiro passo para a redução dos gases do efeito estufa, colocando a maior economia mundial na frente do esforço global na luta contra a mudança climática. Agora, estão praticamente destroçados. / ADAM NAGOURNEY CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM DE LOS ANGELES

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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