Melina Mara/The Washington Post via AP
Melina Mara/The Washington Post via AP

Aos 100 dias, Biden reafirma seu antagonismo à era Reagan; leia a análise

Agenda de Biden representa um reequilíbrio significativo das prioridades da nação, embora os efeitos demorem bastante tempo a serem plenamente sentidos

Dan Balz, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 13h24

Como o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, marcou os seus primeiros 100 dias no cargo com um discurso à nação na quarta-feira, em que o alcance e as implicações da sua agenda interna ficaram bastante visíveis. Juntos, representam a mudança mais dramática na política econômica e social federal desde que Ronald Reagan foi eleito, há 40 anos.

A filosofia do “pequeno governo” de Reagan resultou na diminuição do papel do Estado na economia, especialmente em investimentos domésticos, e em políticas fiscais que beneficiaram principalmente os americanos mais ricos.

Se Biden conseguir avançar com seu plano, e isso ainda é um grande ponto de interrogação, essas políticas seriam substituídas por uma agenda que aborda diretamente as desigualdades econômicas, raciais e de gênero, questões de longa data, que se tornaram ainda mais evidentes durante a pandemia do coronavírus.

Biden teve de esperar quase 50 anos para realizar o seu sonho de se tornar presidente. No cargo, ele tem trabalhado como se não tivesse tempo a perder.

Durante os seus primeiros 100 dias, incluindo no discurso feito na noite de ontem, a agenda de governo do democrata indica que há uma necessidade urgente de agir e uma oportunidade de fazê-lo agora. Contudo, o tempo é curto.

Biden disse que para vencer o campeonato em direção ao futuro, a nação precisa de “um investimento único nas nossas famílias e nos filhos”.

Seu discurso foi um reflexo de sua presidência até o momento: um apelo por uma ação grande e ousada descrita na retórica mais cotidiana e por um líder cujo comportamento e temperamento são o oposto de seu antecessor, o ex-presidente Donald Trump.

Mas dadas as estreitas maiorias dos democratas na Câmara e no Senado e uma nação ainda fortemente dividida sobre o desempenho do presidente, a agenda de Biden representa uma aposta política de enormes proporções, uma aposta que será julgada tanto em meados de 2022 quanto nas eleições presidenciais de 2024.

política de redistribuição, que está no centro do que Biden propõe, poderia ser o teste para décadas de suposições de que os democratas deveriam temer ser rotulados como o partido do “grande governo”, em que o Estado é o grande provedor de serviços.

Se os principais aspectos do que Biden falou na noite de quarta-feira parecem familiares, são tudo menos ordinários, a começar pelo custo dos três principais elementos dos seus planos que já foram anunciados.

Juntos, o já aprovado plano para conter a pandemia do coronavírus, a proposta de infraestrutura, que foi revelada há algumas semanas, e o recentemente plano proposto de investimento em programas de assistência social totalizam cerca de US$ 6 trilhões, grande parte dos quais serão destinados a famílias da classe média e trabalhadora. 

Para isso, Biden financiaria grande parte dos dois últimos pacotes com o aumento dos impostos sobre as empresas e sobre os americanos mais ricos.

Os republicanos classificaram a agenda do presidente como radical, e talvez pelos padrões anteriores do partido — pelos padrões da era Reagan — esse seja o caso. 

Representa, de fato, uma grande ruptura. Mas também é verdade que Trump abraçou cortes fiscais e despesas com o coronavírus que totalizaram bem mais de US$ 4 trilhões — pondo de lado as preocupações de longa data dos republicanos sobre deficits e despesas governamentais — e também apelou a um programa de infraestrutura massivo, embora nunca o tenha realmente impulsionado.

A agenda de Biden representa um reequilíbrio significativo das prioridades da nação, embora os efeitos demorem bastante tempo a serem plenamente sentidos. 

O que torna a situação de Biden única em relação às dos ex-presidentes que impulsionaram grandes mudanças — seja Franklin D. Roosevelt, Lyndon B. Johnson ou Reagan — é a diferença entre maiorias políticas reais e as maiorias mais tênues sobre as quais repousam as esperanças de Biden.

O democrata está em busca da transformação de uma base muito menor do que qualquer dos presidentes anteriores, o que torna a aposta política tão grande.

Se ele for bem sucedido e a economia pegar no tranco até 2022 e depois o público decidir que, em vez de preocupações sobre deficits e despesas, prefere um governo mais agressivo às desigualdades sociais, então Biden e os democratas poderão prosperar.

Mas se as coisas forem no sentido contrário, isso poderia facilmente colocar os republicanos de volta na Casa Branca e permitir o reaparecimento do trumpismo.

"A administração Biden está fazendo uma enorme aposta numa certa visão de futuro", disse William Galston, da Brookings Institution. 

"Se as apostas se mostrarem corretas, não será apenas transformador, mas celebrado na história como tal. Terá aproveitado a mais fina maioria política possível em realizações muito grandes".

As negociações estão à frente e Biden sinalizou que está preparado para fazer algumas mudanças. Mas, em traços largos, ele definiu o seu rumo e é tudo menos tímido, incremental ou sem riscos. 

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