REUTERS/Eliana Aponte/File
REUTERS/Eliana Aponte/File

CENÁRIO: Aos 15 anos, plano exibe sucessos e frustrações

Antes sinônimo de derramamento de sangue e sequestros, a violência caiu dramaticamente e o governo está próximo de um acordo de paz, mas problemas persistem

Jim Wyss / MIAMI HERALD, O Estado de S. Paulo

04 de fevereiro de 2016 | 20h56

Enquanto Fulgéncio Quenguan andava por um caminho estreito e sujo da fazenda, que ele chama de “futuro de sua família”, tropeçou num vestígio do seu passado: uma robusta planta de coca, crescendo apesar dos anos de fumigação, erradicação e negligência. “Essas coisas são tão teimosas”, disse. “Se fosse uma planta para comer, teria um agrônomo aqui analisando nosso solo e nos dizendo como produzir. Cresce em qualquer lugar.”

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, foi a Washington celebrar os 15 anos do Plano Colômbia. Uma década e meia depois, essas medidas levam o crédito pela reviravolta no país. Antes sinônimo de derramamento de sangue e sequestros, a violência caiu dramaticamente e o governo está próximo de um acordo de paz com o maior grupo guerrilheiro do país, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

“Antes do Plano Colômbia todo mundo, até mesmo os EUA, acreditavam que estávamos à beira de nos tornar um Estado falido”, disse o ex-presidente Andrés Pastrana, que deu início à iniciativa com o americano Bill Clinton. “Agora, a Colômbia é uma nação viável e isso ocorre graças ao Plano Colômbia.”

Mas, como a planta selvagem de Quenguan, os problemas persistem. “Nosso sucesso tem sido relativo”, disse o presidente Juan Manuel Santos na semana passada durante um simpósio sobre drogas. “Fomos capazes de acabar com grandes cartéis e eliminamos mais de 100 mil hectares de plantações de coca, mas ainda somos o maior exportador de cocaína do mundo.”

Putumayo, na fronteira com o Equador, foi onde o Plano Colômbia começou a ser implementado. A província rural era forte em fazendas de folha de coca e fraca em presença do governo. Mesmo antes de se tornar adolescente, Quenguan já trabalhava nos campos e, no fim da década de 80, ele e sua família tinham uma fazenda de folha de coca de 98 acres. 

“Era um dinheiro fácil”, disse ele. Ao contrário da yuca e de outras culturas, que tinham de ser levadas aos mercados por meio de estradas ruins e sujas, os compradores iam até eles. Quenguan disse que ganhava 60 milhões de pesos por ano – cerca de US$ 30 mil na época.

Embora Putumayo tenha sido inundada de dinheiro do Plano Colômbia, muitos ainda acusam os Estados Unidos pela perda de seus meios de subsistência e pelo aumento da violência.

Miguel Alirio Rosero, prefeito de Orito entre 2001 e 2004, disse que o programa de erradicação aérea foi, muitas vezes, contraproducente, matando inadvertidamente culturas que haviam sido doadas pelas agências. “A fumigação foi completamente irracional”, disse ele. 

E os projetos de desenvolvimento alternativo apresentados eram, geralmente, impraticáveis. Moradores locais reclamavam de ter recebido raças de gado e de frango que não sobreviviam às condições locais. 

O mundo de Quenguan mudou assim que o Plano Colômbia o descobriu. Por meio de um programa chamado Familias Guardabosques, toda a vila de Los Laureles voluntariamente erradicou suas plantações de coca em troca de financiamento e apoio técnico.

Ele usou o dinheiro para começar a criar peixe. Agora, a cada dia, vende cerca de 25 quilos de tilápia e pirambu na sua loja. No fim do mês, lucra cerca de US$ 250, cerca de um décimo do que ganhava dos traficantes.

“Não há nada que possa substituir a coca”, disse ele, que, em compensação, tem paz de espírito. / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.