Leo La Valle/EFE
Leo La Valle/EFE

Aos 87 anos, morre o ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla

Ex-general cumpria prisão perpétua por crimes cometidos durante o regime militar

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

17 de maio de 2013 | 10h44

(Atualizada às 16h33) BUENOS AIRES - O ex-ditador Jorge Rafael Videla - autor de sequestros, torturas e o assassinato de milhares de pessoas na Argentina durante a ditadura militar (1976-83) morreu às 6:30 horas na manhã desta sexta-feira. Segundo a versão oficial, do Serviço Penitenciário federal, ele morreu na cama, às 8:25 em sua cela.

Videla foi condenado em 2010 à pena de prisão perpétua pelo assassinato de civis. No ano passado acumulou uma pena de 50 anos pelo roubo de 35 bebês, filhos das desaparecidas políticas.

"Morreu sem a violência que exerceu durante a ditadura...e morreu sem dar as informações sobre o paradeiro dos corpos dos desaparecidos e dos bebês sequestrados", lamentou Nora Cortiñas, uma das líderes da organização de defesa dos direitos humanos das Mães da Praça de Maio.

Descendente de uma tradicional família do interior da Argentina, Jorge Rafael Videla nasceu em 1925 na cidade de Mercedes, província de Buenos Aires. Filho de um coronel do Exército, seguiu a carreira do pai. O jovem Videla formou-se na Academia Militar em 1942 com o grau de subtenente da infantaria. Aluno destacado, foi o sexto colocado de um total de 196 cadetes. Sua ascensão foi constante. Em 1971, designado general de brigada, tornou-se o diretor do Colégio Militar. Em agosto de 1975 a então presidente Isabelita Perón colocou Videla no posto de Comandante em chefe do Exército.

Poucos meses depois, no dia 24 de março de 1976, Videla liderou o golpe de Estado que derrubou Isabelita. O general foi presidente da Argentina até março de 1981. Videla governou o país nos primeiros cinco anos (de um total de 7 anos de meio de ditadura) do regime militar, os anos de maior repressão. Ele foi o ditador que esteve mais tempo no poder na Argentina.

A ditadura acabou em dezembro de 1983, quando Videla estava na reserva. Com a volta da democracia, começaram as investigações sobre os crimes do ex-ditador. Ele foi condenado à prisão perpétua pela primeira vez em 1985, durante o julgamento das juntas militares - denominado de "Nuremberg argentino". Mas, em 1990 foi anistiado pelo presidente Carlos Menem.

Em 1998, os organismos de defesa dos direitos humanos driblaram as leis de perdão aos militares e conseguiram a detenção de Videla pelos roubos de crianças, crime que não havia sido incluído no indulto presidencial. Em 2007, com a anulação dos indultos, declarados inconstitucionais, Videla tornou-se alvo de uma série de processos na Justiça relativos aos assassinatos ordenados por ele durante a ditadura.

Em um dos julgamentos, em 2010, Videla fez uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a "necessária crueldade" da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a "sociedade argentina" havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, "não existiam vozes contrárias" ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria "injusta" e que ele era um "bode expiatório".

María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu "O Ditador", uma detalhada biografia não autorizada do ex-general, me disse que "Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!"

Segundo Seoane, "Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 500 campos de concentração da ditadura".

Seoane, autora de diversos livros sobre a História recente argentina, sustenta que Videla e seus sucessores na ditadura (os generais Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone) "não foram os mentores intelectuais do golpe, mas sim o braço armado dos grupos econômicos que respaldaram o golpe militar. Eles fizeram as matanças por dinheiro, para implantar seu modelo econômico. Depois, deram uma roupagem ideológica como o 'combate ao comunismo' e essas coisas. Mas, no fundo, era tudo por uma questão de dinheiro".

O ex-ditador se negou até o fim a prestar depoimento nas investigações sobre a Operação Condor. Em março, a Justiça argentina iniciou o julgamento de crimes cometidos durante a operação, que envolveu a colaboração entre ditaduras da América Latina para perseguir opositores políticos fora de suas fronteiras, nos anos 70. 

"Ele passou sua vida causando muita maldade, o que deixou uma marca na vida do país", declarou Adolfo Perez Esquivel, ativista argentino dos direitos humanos e vencedor de um prêmio Nobel. "Sua morte encerra sua presença física, mas não o que ele fez para o país", completou.

APELIDO. Durante a ditadura Videla foi apelidado de "a pantera cor de rosa", por dois motivos: sua sorte em escapar de vários atentados enquanto era ditador, tal como a pantera do desenho animado, e ser magro e ter o mesmo caminhar cadenciado da pantera cor de rosa. / Com Reuters

 

 

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