Daniel Bockwoldt/POOL/AFP
Daniel Bockwoldt/POOL/AFP

Aos 93 anos, ex-guarda nazista pede perdão pelo Holocausto antes de receber sentença

Processo poderá se tornar um dos últimos por crimes do nazismo; outros casos similares acabaram abandonados diante da incapacidade do acusado de responder à Justiça por razões de idade ou saúde frágil 

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2020 | 19h27

HAMBURGO - Um ex-guarda de campo de concentração nazista, julgado na Alemanha por cumplicidade no assassinato de milhares de pessoas, pediu desculpas, nesta segunda-feira, 20, pelas vítimas do Holocausto, poucos dias antes de que seja anunciada sua sentença.

"Hoje, gostaria de me desculpar diante daqueles que sofreram esse inferno de loucura e diante de seus parentes. Algo semelhante nunca deve acontecer novamente", declarou Bruno Dey, de 93 anos, em sua última declaração antes do veredicto previsto para quinta-feira. Durante a audiência, ele cobriu o rosto. 

As declarações das testemunhas lhe permitiram compreender "toda a magnitude da crueldade" dos atos praticados no campo Stutthof, no norte da Polônia, acrescentou.

"Gostaria de reiterar que nunca fui voluntário para me alistar nas SS ou em um campo de concentração", enfatizou, apontando que nunca estaria lá se tivesse a chance de evitá-lo.

Bruno Dey é acusado de cumplicidade no assassinato de 5.230 pessoas, entre agosto de 1944 e abril de 1945, no campo de Stutthof, próximo ao que então era Danzig, atualmente Gdansk, na Polônia.

Ele é julgado em um tribunal de menores porque tinha entre 17 e 18 anos na época. Segundo a promotoria, "ele apoiou o terrível assassinato especialmente de presos judeus".

Seu advogado, Stefan Waterkamp, pediu hoje a anulação do caso ou, na pior das hipóteses, uma punição com suspensão da pena de prisão, de acordo com a legislação para menores. Deve-se levar em conta que o fato de "ser destinado a um campo de concentração não era considerado um crime na época" alegou o advogado.

Criado em 1939, o campo de concentração de Stutthof, o primeiro construído fora de Alemanha, foi inicialmente destinado a presos políticos poloneses. No entanto, acabou recebendo cerca de 115 mil deportados, muitos deles judeus. Aproximadamente 65 mil pessoas morreram nele.

O processo contra Dey está sendo conduzido na Audiência de Hamburgo, no contexto de uma série de casos tardios abertos nos últimos anos por cumplicidade nos crimes do Terceiro Reich

Após a derrota do nazismo, Dey passou um período curto em um campo de prisioneiros e logo pode levar uma vida normal, como padeiro, caminhoneiro, entre outras funções. Ele se casou, teve filhos e se instalou em Hamburgo. 

Durante décadas, a Justiça não abriu um processo contra ele por não considerá-lo responsável direto pelos crimes de guerra. 

Em abril do ano passado, a Procuradoria de Hamburgo apresentou uma acusação formal, sustentada pelos testemunhos de parentes das vítimas, alguns dos quais assistiram às audiências. 

Seu processo poderá se tornar um dos últimos julgamentos por crimes do nazismo. Outros casos similares instruídos nos últimos anos acabaram abandonados diante da incapacidade do acusado de responder à Justiça por razões de idade muito avançada ou de saúde frágil. 

Essa série de processos tardios tem sido possível tomando como precedente a sentença contra o ex-guarda ucraniano John Demjanjuk, que foi condenado em 2011 a 5 anos de prisão por cumplicidade nas mortes de Sobibor, na Polônia ocupada. 

Demjanjuk, que depois da 2ª Guerra viveu por décadas nos Estados Unidos até que foi extraditado para a Alemanha, assistiu às audiências do processo em uma maca, nunca chegou a se pronunciar sobre as acusações contra ele e morreu alguns meses depois de ouvir sua sentença em um asilo para idosos. 

Em março do ano passado, morreu sem chegar a entrar uma prisão, o chamado "contador de Auschwitz", Oskar Gröning, que em 2015 foi condenado a 4 anos de prisão por cumplicidade nas mortes de 300 mil judeus ocorridas enquanto ele serviu naquele que foi o maior campo de extermínio nazista. 

Apesar das dificuldades que acompanham cada um desses processos, a Justiça alemã adere ao princípio de que o assassinato não prescreve, independentemente de o acusado ser capaz de cumprir sua eventual sentença./AFP e EFE 

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