Aos desertores do EI, restam a morte ou o limbo

Ex-combatentes têm de conviver com a desconfiança de seus países e o temor deserem mortos por grupo

LORI HINNANT , PAUL SCHEMM , ASSOCIATED PRESS / TÚNIS, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2015 | 02h01

O homem postado furtivamente numa esquina de Túnis, o rosto coberto por um capuz, examina com olhos tensos a multidão na rua tentando descobrir algum militante do Estado Islâmico. Antes de deixar a Síria, há um ano, ele era membro do grupo, e está com medo. Agora, fuma sem parar enquanto descreve as mortes indiscriminadas, o abuso das recrutas femininas, o desconforto de uma vida em que as paredes são opcionais e as refeições pouco mais que pão e queijo ou azeite.

"É totalmente diferente do que eles diziam que a jihad seria", afirmou, Ghaith, que pediu para ser identificado apenas pelo nome. Enquanto estrangeiros procedentes de todas as partes aderiram ao grupo militante, alguns chegam do Iraque ou da Síria para encontrar uma vida muito mais austera e violenta do que esperavam. Esses novos recrutas desiludidos logo descobrem que é muito mais difícil deixar a organização do que ingressar nela. E mesmo que consigam fugir, permanecem aprisionados num limbo, considerados uma ameaça tanto por companheiros de armas quanto por seus países. Eles passaram a ser vistos com mais desconfiança ainda depois do massacre no jornal Charlie Hebdo, em Paris, no dia 7.

"Os que tentam deixar o EI ou o al-Nusra devem fazê-lo secretamente", disse o juiz encarregado do combate ao terror na França, Marc Trevidic. Alguns recrutas estrangeiros escrevem para casa dizendo que estão sendo retidos contra a própria vontade, relatou o funcionário.

Em outras circunstâncias, os combatentes tentam fugir, mas acabam perdendo a vida. Muitos emires, ou líderes de unidades, simplesmente ordenam a morte dos que eles suspeitam de deslealdade.

A Associated Press conversou com alguns ex-combatentes, com suas famílias e seus advogados sobre a vida no grupo.

Muitos só concordam em falar se não forem identificados com medo de retaliação. Seus relatos se assemelham.

Ghaith foi à Síria para participar da jihad e colher o que acreditava ser o seu prêmio no paraíso. Mas ao chegar lá, ficou profundamente abalado ao ver recrutas femininas sendo forçadas a fazer sexo nos acampamentos, frequentemente "casando" por uma noite com homens diferentes.

"Era pela força, porque elas não podiam se recusar ou seriam mortas", contou.

Vários outros relataram o mesmo à AP, com evidente desconforto. Alguns homens descreveram discussões nos acampamentos a respeito do comportamento que seria permissível de acordo com o Islã.

A relutância de Ghaith em participar das mortes logo chamou a atenção.

Uma noite, alguns colegas o acordaram ameaçando-o com uma faca na garganta e exigiram que ele recitasse um determinado versículo do Alcorão sobre a guerra islâmica para pôr à prova a sua devoção. Ghaith deixou o EI por uma das únicas maneiras possíveis - rendeu-se aos soldados sírios enquanto vigiava um posto de controle.

Diferentemente de Ghaith, a maneira de sair para Youssef Akkari foi a morte. Akkari começou a frequentar a mesquita com mais frequência quando um dos seus amigos se afogou. Na mesquita, simpatizou com um grupo de jovens religiosos que falavam com ele de religião, da guerra e do mal perpetrado pelo líder sírio Bashar Assad. Seu irmão, Mehdi Akkari, conhecido pelo pseudônimo de rapper DJ Costa, contou que Youssef passava muitas horas em seu quarto ouvindo cânticos religiosos e lendo no laptop.

Um dia, a família recebeu uma mensagem informando que ele estava na Turquia e logo cruzaria a fronteira para a Síria.

Então Youssef perdeu seus óculos e se tornou inútil para o EI como combatente, disse o irmão. Depois de sete meses, Youssef começou a preparar sua fuga, com dois irmãos. Os irmãos nunca conseguiram. Seu comandante descobriu o complô e os mandou matar imediatamente.

Youssef depois entregou-se a combatentes curdos que o levaram para a Turquia, e finalmente, para a Tunísia. Mas retomar uma vida normal na Tunísia foi impossível para ele, por um lado por causa do assédio da polícia e por outro por seu terror da vingança dos militantes. Regressou à Síria e morreu em outubro, em um ataque aéreo nos arredores da cidade de Kobani, quando estava num carro cheio de combatentes estrangeiros. As circunstâncias de sua morte não foram esclarecidas.

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