Aos poucos, o Iraque desaparece

O problema não é que o Exército iraquiano esteja em colapso, mas que curdos, xiitas e sunitas lutam pelos próprios interesses enquanto o país desmorona

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2015 | 02h05

O secretário de Defesa dos EUA, Ash Carter, expressou-se inadequadamente na semana passada, tendo feito observações que provocaram uma tempestade de fogo em Washington e em Bagdá. O secretário explicou a captura de Ramadi pelo Estado Islâmico afirmando que "as forças iraquianas não demonstraram nenhuma vontade de lutar". Ele esqueceu de completar a frase, acrescentando "pelo Iraque".

Claro que há muitas pessoas que querem combater feroz e bravamente nessa parte do mundo - basta ver os números da violência. Os curdos lutam furiosamente pelo Curdistão. Os xiitas combatem tenazmente por seu povo. Os sunitas do Estado Islâmico matam e morrem por sua causa. No entanto, ninguém quer lutar pelo Iraque. Na verdade, o problema não é que o Exército iraquiano está em colapso. É o Iraque que vem desmoronando.

O Estado Islâmico, na sua essência, é uma insurgência contra os governos do Iraque e da Síria. E nenhuma insurgência consegue prosperar sem algum apoio da população local. O Estado Islâmico tem o apoio das populações sunitas descontentes em ambos os países, que se sentem perseguidas pelos governos xiita e alauita.

Munqitj al-Dagher dirige uma empresa de pesquisa no Iraque que realizou mais de 1 milhão de entrevistas no país durante a década passada. Ele observou que a vasta maioria dos sunitas odeia o Estado Islâmico. Mais de 90% dos iraquianos em áreas dominadas por sunitas consideram o EI uma organização terrorista.

No entanto, o grupo extremista tem conseguido se beneficiar com "o profundo e extremo descontentamento dos sunitas com o governo central iraquiano". Antes da queda de Mossul, 91% dos moradores (principalmente sunitas) afirmavam que o Iraque caminhava na direção errada.

O descontentamento sunita não é com relação a pequenos atos de desrespeito, como a concessão de contratos e ofertas de emprego para xiitas. Tem a ver com vida e morte. Por exemplo, em agosto de 2014, milícias xiitas e curdas e o Exército iraquiano - apoiados pela Força Aérea dos EUA - expulsaram o EI da cidade de Amerli.

No entanto, "após as operações para por fim à captura de Amerli pelo EI, milícias pró-governo, voluntários combatentes e forças de segurança iraquianas atacaram vilarejos e distritos sunitas em torno da cidade, saquearam propriedades civis, queimaram casas e empresas de moradores sunitas e usaram explosivos e equipamento pesado para destruir edifícios ou povoados inteiros", relatou a ONG Human Rights Watch.

David Kirkpatrick, do New York Times, descreveu a mesma situação após a libertação de Jurf al-Sakhar, quando 70 mil sunitas foram expulsos. "O representante da cidade do conselho provincial era o único membro sunita e foi encontrado morto com uma bala na testa", escreveu.

A maioria dos sunitas opõe-se ao EI e foge de todos os lugares capturados pelo grupo, mas não encontra uma cidade onde se reinstalar. A limpeza étnica no Iraque - com xiitas mudando-se para áreas xiitas e curdos fazendo o mesmo - começou com a guerra civil, em 2006, mas acelerou fortemente. Mesmo Bagdá, que era uma cidade heterogênea e diversa, se dividiu em enclaves étnicos sectários e se tornou preponderantemente xiita.

O Iraque hoje não existe mais. Em 2008, 80% das pessoas responderam a uma pesquisa afirmando ser "iraquiano acima de tudo". Hoje, essa porcentagem caiu para 40%. Os curdos aproveitaram a oportunidade para aumentar ainda mais sua já considerável autonomia. Recentemente, perguntei a um político curdo quantos cidadãos apoiariam a independência de suas províncias. "Entre 99% e 100%", ele respondeu.

Doze anos após a queda de Saddam Hussein, os curdos e o governo de Bagdá ainda não entraram em acordo para dividir suas receitas de petróleo. Em junho de 2014, Kenneth Pollack, do Brookings Institution, escreveu um inteligente ensaio para o Wall Street Journal delineando sete medidas políticas e legislativas que o Iraque precisava adotar para dar aos xiitas mais confiança e participação no país. Segundo ele, a ajuda militar americana devia ser condicionada à aprovação de tais medidas. Quase um ano depois, o Iraque atendeu a apenas uma daquelas condições.

A divisão sectária aumenta a partir do exterior. O Irã apoia o governo de Bagdá e as milícias xiitas. Regimes sunitas, como a Arábia Saudita, financiam grupos militantes sunitas no Iraque e na Síria e recusa-se a apoiar o governo de Bagdá, mesmo na sua luta contra o Estado Islâmico.

Depois de muitos anúncios de ataques aéreos árabes, de ajuda militar e de mobilização de soldados, na realidade, os Estados árabes em torno do Iraque são mais antixiitas do que anti-Estado Islâmico. Os republicanos, que insistem para os americanos se unirem a uma "força árabe" para combater o grupo extremista, talvez não tenham percebido que não existe nenhuma força árabe. Washington pode fornecer ajuda, treinamento, armas, poder aéreo e até mesmo soldados, mas não conseguirá unir uma nação em ruínas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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