Aos vencedores, mais desafios

Líderes eleitos serão confrontados com a perda de autonomia econômica e um crescimento mais lento

O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2012 | 03h03

Um número surpreendente de eleições e de transições políticas deverá ocorrer nos próximos meses. Uma lista incompleta mostra Rússia, China, França, EUA, Egito, México e Coreia do Sul envolvidas nesses eventos.

À primeira vista, esses países têm pouco em comum. Alguns deles são democracias firmemente estabelecidas. Outros são sistemas autoritários e outros ainda estão a meio caminho entre as duas modalidades.

Apesar das discrepâncias, essas nações - e os indivíduos que as governarão - enfrentam em grande parte os mesmos desafios. Três deles se destacam. O primeiro é que nenhum país é totalmente dono de si mesmo. No mundo de hoje, nenhum país desfruta de total autonomia ou independência. Num grau ou em outro, todos dependem do acesso aos mercados externos para vender seus bens manufaturados, produtos agrícolas, recursos ou serviços - ou para comprá-los. Nenhum deles pode eliminar a concorrência econômica no acesso aos mercados de terceiros países.

Muitos precisam do ingresso de capitais para financiar os investimentos ou da emissão de títulos da dívida pública. A oferta e a demanda globais determinam em geral os preços do petróleo e do gás. A interdependência econômica e a vulnerabilidade que isso acarreta constituem um fato inelutável da vida contemporânea. Mas a dependência econômica de outros países não é a única realidade internacional com a qual os governos precisam competir. É igualmente difícil - senão impossível - para os países isolar-se do terrorismo, das armas, de doenças pandêmicas ou das mudanças climáticas.

Afinal, as fronteiras não são impermeáveis. Ao contrário, a globalização - o imenso fluxo de pessoas, ideias, gases do efeito estufa, bens, serviços, moedas, mercadorias, sinais de televisão e rádio, drogas, armas, e-mails, vírus (de computador e biológicos), que se dá através das fronteiras, e muito mais - é a realidade que define o nosso tempo. São poucos os desafios que ela causa que podem ser enfrentados unilateralmente. Na maioria das vezes, a cooperação, o compromisso e um grau de multilateralismo são essenciais.

Um segundo desafio universal é o da tecnologia. A visão de George Orwell em seu livro 1984 não poderia ser mais equivocada, pois o que distingue a moderna tecnologia não é o Big Brother, mas a descentralização. Agora, podemos ter uma capacidade de armazenação de dados muito maior em um desktop ou na nossa mão do que a geração passada, que precisava do espaço de toda uma sala.

Consequentemente, em todos os países as pessoas têm mais acesso a um número maior de fontes de informação em relação ao que ocorreia antes, tornando cada vez mais difícil para os governos controlar, e muito menos monopolizar, o fluxo do conhecimento. Os cidadãos também desfrutam de uma facilidade cada vez maior graças ao celular e às redes sociais de se comunicarem diretamente. Uma das consequências dessa tendência é que os governos autoritários não podem mais controlar seus cidadãos tão facilmente.

Sem dúvida, a tecnologia fornece uma das explicações para os levantes que vemos em grande parte do mundo árabe. É muito mais difícil produzir um consenso social e governar em um mundo em que os cidadãos podem escolher o que leem, veem e ouvem e com quem conversam.

Um terceiro desafio com o qual os líderes dos países emergentes se defrontarão é o fato inevitável de que as reivindicações dos cidadãos cada vez mais superam a capacidade de satisfazê-las. Isso é sempre válido no chamado mundo em desenvolvimento (em geral relativamente pobre). Mas agora também se aplica às democracias maduras que vivem uma situação relativamente boa, assim como alguns dos países de maior crescimento.

Em muitos casos, a expansão econômica é mais lenta do que afirma a norma histórica. Isso é bastante evidente em grande parte da Europa, no Japão e nos EUA. Mas o crescimento também está desacelerando na China e na Índia, que representam, juntas, mais de um terço da população mundial.

As taxas de desemprego são elevadas, principalmente nos EUA e na Europa Ocidental, particularmente entre os jovens e os trabalhadores que se aproximam do fim de sua carreira (mas que ainda poderão viver dezenas de anos). No entanto, o que mais preocupa é que isso se traduzirá em desemprego no longo prazo.

Em razão dessas mudanças econômicas e demográficas, uma porcentagem crescente da renda nacional está sendo gasta com saúde, aposentadorias e outras formas de suporte básico, enquanto uma porcentagem sempre menor de cidadãos em quase todas as sociedades trabalha nesse momento para financiar um número crescente de concidadãos. Essa dependência crescente agrava-se por causa da desigualdade econômica cada vez mais ampla. E como a riqueza está cada vez mais concentrada num número menor de indivíduos, a promessa de um padrão de vida melhor para a maioria das pessoas talvez não possa ser cumprida.

Juntas, as três tendências - a perda de autonomia econômica e física, a difusão da tecnologia da informação e um crescimento mais lento numa conjuntura em que as populações crescem continuamente assim como a expectativa de vida - criarão enormes desafios políticos praticamente em todos os países. As reivindicações crescem e a capacidade dos governos para satisfazê-las se reduz. Os líderes que assumirão o poder depois das transições deste ano terão de encarar essa realidade básica.

E também terão de encarar os subprodutos de um nacionalismo, de um populismo e, em alguns casos, de um extremismo muito mais intensos. As projeções mostram que a hostilidade em relação à imigração e ao protecionismo econômico, já visível, deverá crescer.

Esses desdobramentos tornarão mais difícil um consenso global a respeito do tratamento a ser dado às ameaças além das fronteiras: não só a governança interna se torna mais difícil, como isso ocorrerá também lá fora. Tempos duros aguardam as nações e seus líderes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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