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Apagão e falta de gasolina na Venezuela podem acelerar queda do chavismo

A pane no país é o retrato da incompetência quase suicida dessas duas décadas de chavismo, que não se pode esconder por trás das alegações de “bloqueio econômico” e “sabotagem”

Lourival Sant'anna, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2019 | 05h00

Pane seca. Essa será uma das causas da queda do chavismo na Venezuela . Isso, num país que tem a maior reserva de petróleo do mundo, a oitava maior de gás e a terceira maior usina hidrelétrica, ao lado de bacias com potenciais gigantescos de geração de energia. O apagão elétrico dos últimos dias e a falta de gasolina são retratos da incompetência quase suicida dessas duas décadas de chavismo, que não se pode esconder por trás das alegações de “bloqueio econômico” e “sabotagem”.

Em 2008, o então presidente Hugo Chávez declarou que a Venezuela “se converteria numa potência energética mundial”. Era um período de grandiloquência. Dois anos antes, Luiz Inácio Lula da Silva, que considerava Chávez um democrata visionário, profetizou que o Brasil se tornaria uma potência do petróleo e até entraria para a Opep, o cartel dos exportadores liderado pela Arábia Saudita, em razão das descobertas do Pré-Sal.

A euforia de Chávez era embalada por descobertas de novas reservas de gás e pela construção da hidrelétrica de Manuel Piar, na represa de Tocoma. Ela está na lista de 11 obras que a Odebrecht não entregou na Venezuela e por cujos contratos pagou US$ 30 bilhões em propinas ao regime chavista, segundo a ex-procuradora-geral venezuelana Luisa Ortega. Coisas parecidas aconteceram com o sonho de Lula no Brasil.

O apagão iniciado na quinta-feira, e que se prolongava em muitos lugares no sábado, é o mais longo da história. O atendimento médico, que já é precário, entrou em colapso. Cirurgias tiveram de ser interrompidas por falta de energia. Nem todos os hospitais têm geradores, e nem todos os geradores têm combustível, já que isso está em falta também.

Foi interrompido o abastecimento de água – onde ele ainda ocorre. Nos bairros de classe média alta de Caracas, não há fornecimento de água, para punir seus moradores por apoiar a oposição e para forçá-los a comprar dos caminhões-pipa, por US$ 15 cada entrega – muito mais do que o salário da maioria da população. Como todo negócio lucrativo na Venezuela, esse também é controlado pelos “enchufados” (em tradução literal, “ligados na tomada”), como são chamados os que se beneficiam de negócios com o regime.

Mas os blecautes são comuns há mais de dez anos. E o problema é simples: falta de geração de energia. A Corpoelec, estatal do setor, deixou de publicar relatórios em 2009 – assim como o Banco Central parou de divulgar índices em 2015. Mas dados fornecidos clandestinamente por funcionários à BBC mostravam, já em 2015, que, de uma capacidade instalada de 34 mil megawatts, a geração era de apenas 17 mil. A demanda, na época, eram 18 mil megawatts. Tanto a geração quanto a demanda caíram desde então, com a obsolescência do sistema e o encolhimento da economia.

Algo parecido ocorreu com a produção de gasolina. Em 2008, o refino representava 77,5% da capacidade instalada da PDVSA, estatal do petróleo. A proporção foi caindo, segundo a agência Bloomberg, com base em dados da própria PDVSA. Chegou a 50,2%, em 2016, a 28,5%, em 2018, e este ano está em 23%. As sanções americanas entraram em vigor em janeiro, portanto a queda da geração de energia e do refino não foi originada por elas. 

Os americanos forneciam dois terços da gasolina consumida pelo país, em grande parte originária da Citgo, subsidiária da PDVSA nos EUA. A queda do fornecimento dentro da Venezuela foi na mesma proporção: de 160 mil barris diários para 60 mil. 

Os EUA também deixaram de fornecer diluentes para o transporte do petróleo da Bacia do Orinoco via oleoduto para a costa caribenha e a nafta usada no refino. A Rússia está enviando esses insumos, mas em quantidade menor. O que o chavismo está recebendo é um tiro de misericórdia. O que o deixou agonizante foi sua incapacidade de gestão. 

 

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