Ronaldo Schemidt/AFP
Ronaldo Schemidt/AFP

Apagões fazem times da Venezuela jogar duas vezes no mesmo dia

Mesmo com crise energética no país deixando estádios sem luz e água, Federação venezuelana não adia jogos do campeonato local e obriga jogadores a atuarem em dois jogos em menos de cinco horas

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2019 | 19h56

O Deportivo Lara é um dos principais clubes da Venezuela. Nesta quarta-feira, 3, em menos de cinco horas de diferença, o time teve de viajar 510 quilômetros e entrar em campo duas vezes, por dois campeonatos diferentes. O motivo? A crise energética e os constantes apagões que afetam o país. Diante dos recorrentes apagões de luz que o país sofre desde março - nesta semana, o governo decretou um racionamento de energia que durará ao menos 30 dias.

No primeiro jogo do dia, o Lara ganhou por 3 a 2 do Llaneros de Guanare pelo Campeonato Venezuelano, em Guanare, distante 255 quilômetros de Lara. Em seguida, voltou para casa e recebeu os argentinos do Huracán pela Copa Libertadores da América. 

Apagões recentes impediram vários jogos de ocorrer. A Federação Venezuelana – que ligada ao chavismo, nega problemas estruturais –, remarcou as partidas para as primeiras datas disponíveis, sem importar se já havia partidas marcadas para a Libertadores. Foi o que ocorreu. 

Mas a Federação Venezuelana, ligada ao chavismo, nega qualquer tipo de problema, e rejeita qualquer adiamento. O calendário segue sem alterações nas próximas datas, e todos os jogos do Torneio Apertura-2019 foram disputados, incluindo em cidades como Maracaibo (noroeste), onde a crise é mais aguda. 

O Deportivo Lara não foi o único. O Zamora, de Barinas, estaria em uma situação pior ainda, não tivesse escalado os reservas para o campeonato nacional. O Zamora visitou o Deportivo La Guaira e perdeu de 4 a 0. A 6,2 mil quilômetros dali, em Belo Horizonte, o time titular se aquecia para enfrentar o Atlético-MG, pela Libertadores. 

A situação pode parecer cômica, mas tem contornos trágicos. No sábado, durante uma partida entre o Zamora e o Lala FC, em Barinas, um súbito apagão ocorreu enquanto o meia Yorvin González, do Lala, era atendido por causa de uma grave lesão de ligamento no joelho direito. Iniciou-se uma busca por um centro de saúde que tivesse gerador de energia próprio para receber o atleta. “Foram momentos de angústia”, disse Del Valle Rojas, técnico do clube. “Não tem luz, não tem água, o jogador não descansa bem. É difícil trabalhar nesta situação.”

O momento de maior tensão aconteceu em 10 de março, quando jogadores do Zulia e do Caracas boicotaram um jogo, se recusando a jogar. Ao som do apito inicial no estádio Romero de Maracaibo, com os vestiários sem luz ou água, os jogadores ficaram parados em campo durante um minuto. Depois, se limitaram a tocar a bola de lado, sem atacar. Foi assim durante os 90 minutos de jogo, que terminou 0 a 0.

"Não há condições para se jogar futebol", escreveu no Twitter o meia Evelio Hernández, uma das referências do Zulia. Na semana passada, a FVF anulou o jogo e chamou para depor os dois técnicos, Francesco Stifano e Noel Sanvicente, e os dois capitães, Leo Morales e Rubert Quijada.

Uma decisão final sobre o caso não foi emitida, mas fontes nas equipes comentaram à AFP que temem que o procedimento termine com punições econômicas e esportivas. A federação deverá ordenar também que a partida seja jogada novamente.

Uma das maiores estrelas do Campeonato Venezuelano, o atacante Richard Blanco, tomou a palavra para pedir que a decisão de continuar jogando fosse reconsiderada. "Como profissional, não considero humano enfrentar uma equipe que não teve as condições necessárias para se preparar", escreveu nas redes sociais antes da partida de sábado entre sua equipe, Mineros de Guayana, e Caracas. Blanco divulgou fotos e vídeos de instalações escuras no estádio.

O jogo acabou sendo disputado com vitória por 4 a 2 da equipe da capital. Os apagões também impactam as competições internacionais. Em 7 de março, quando a rede elétrica da Venezuela começou a dar problemas, a partida entre Deportivo Lara e Emelec, do Equador, pela Copa Libertadores, precisou ser adiada para o dia seguinte por um corte de luz na cidade de Barquisimeto./ AFP


 

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