Democratic National Commitee via NYT
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'Existe apenas caos', diz Clinton sobre Casa Branca de Trump

Em discurso durante segunda noite da convenção democrata, ex-presidente fez duras críticas à condução da crise do coronavírus

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2020 | 20h05
Atualizado 19 de agosto de 2020 | 00h09

A segunda noite de convenção democrata expôs a transformação pela qual o partido tem passado nos últimos anos, materializada no papel quase irrelevante destinado para o ex-presidente Bill Clinton. 

Em discurso gravado para a segunda noite da convenção democrata, o ex-presidente fez duras críticas à condução da atual crise pelo presidente Donald Trump. A Casa Branca, disse o ex-presidente, deveria ser um centro de comando mas tornou-se um centro de tempestades. "Existe apenas caos", afirmou.

"No início, ele disse que o vírus estava sob controle e logo desapareceria. Quando isso não aconteceu, ele estava na TV todos os dias se gabando do excelente trabalho que estava fazendo, enquanto os cientistas aguardavam para nos dar informações vitais. Quando ele não gostou do conselho de especialistas, ele o ignorou", disse Clinton. 

O ex-presidente foi o terceiro a usar uma resposta do próprio Trump sobre a alta mortalidade por covid-19 nos EUA para criticar a falta de liderança do presidente. "É o que é", disse Trump sobre as mortes. Na segunda-feira, a ex-primeira dama, Michelle Obama, usou a expressão para argumentar que Trump não está à altura do momento

A frase foi relembrada pelo senador Chuck Schumer, líder do partido democrata no Senado, no início da segunda noite da convenção e repetida por Clinton. "Somente quando a covid explodiu em ainda mais Estados ele encorajou as pessoas a usarem máscaras. Àquela altura, muitos mais estavam morrendo. Quando questionado sobre o aumento nas mortes, ele deu de ombros e disse: 'É o que é.' Mas precisava ser assim? Não, a covid bateu mais forte do que precisava", disse.

Ele definiu Trump como um presidente que "passa horas por dia assistindo TV" e atacando pessoas nas redes sociais, em vez de lidar com a crise. "Vocês sabem o que Donald Trump fará com mais quatro anos: culpar, intimidar e depreciar. E você sabe o que Joe Biden fará: reconstruir melhor", disse o ex-presidente.

Clinton teve menos de cinco minutos na convenção democrata desta noite, um papel quase irrelevante comparado com suas participações dos anos anteriores. Em 2012, ele teve mais de 45 minutos no horário nobre da convenção democrata para defender a reeleição de Barack Obama. Em 2016, ele assumiu o protagonismo da campanha de Hillary Clinton.

Politicamente, Clinton foi um presidente que se apresentou como uma “terceira via”, puxando para o centro um partido que tem se movido para a esquerda. A indicação de Joe Biden, neste ano, representa uma vitória da ala moderada do partido, mas a mudança no perfil da legenda é claro. Mesmo Biden a reconhece e se declara como um “candidato de transição” que passará o bastão para um novo perfil democrata. 

No campo pessoal, a bagagem de acusações de assédio sexual contra Clinton pesa desde o surgimento do movimento conhecido como “MeToo”. 

Horas antes da segunda noite da convenção começar, o site do Daily Mail divulgou fotos de 2003 do ex-presidente recebendo uma massagem no pescoço de Chauntae Davies, uma das mulheres que denunciou Jeffrey Epstein, o bilionário americano morto acusado de tráfico e abuso sexual de menores. O fantasma do passado do ex-presidente não é mais tolerado pelo eleitorado feminino e progressista. 

O contraste claro é o caso da deputada em primeiro mandato Alexandria Ocasio-Cortez, a mais jovem a se eleger à Câmara americana. AOC, como é conhecida, teve só um minuto para discursar nas duas horas desta noite, mas mesmo assim foi tratada como a grande atração.

A deputada de esquerda fez campanha por Bernie Sanders e é extremamente popular nas redes sociais, onde vídeos com seus eloquentes discursos no Congresso comumente se tornam virais. Ao menos 63% dos eleitores americanos que responderam pesquisa da rede CBS com a YouGov disseram que gostariam de ouvi-la discursar na convenção. A limitação de tempo dado a AOC foi lida nos bastidores como uma maneira de evitar dar munição ao discurso de Trump de que Biden está ligado à “esquerda radical”. 

O segundo dia de convenção foi batizado de "liderança importa". A ideia era mostrar o contraste entre Biden e Trump, apresentando o democrata como um político experiente e cercado de especialistas. A questão é que as lideranças tradicionais do partido escaladas para testemunhar a expertise de Biden estão distantes da imagem que os democratas tentam passar neste ano, de comprometimento com a diversidade. 

Em 2020, a cobrança crescente do eleitorado por maior participação de mulheres, negros, latinos e jovens nos quadros partidários exigiu um novo arranjo. O título de "discurso principal" da noite foi dado não a uma, mas a 17 estrelas em ascensão do partido, que mostraram a nova cara do partido democrata, com maior diversidade.

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Uma das escolhidas foi Stacey Abrams, em 2018 perdeu por pouco a eleição para o governo da Geórgia, quando teria se tornado a primeira mulher negra a comandar o Estado. O grupo tem ainda Yvanna Cancela, senadora por Nevada e descendente de cubanos, e Nikki Fried, primeira mulher a assumir o Departamento de Agricultura da Flórida, entre outros nomes.

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