Apavorante laço Romney-Cheney

Dos 24 assessores de política externa do candidato republicano, 17 estiveram no governo de George W. Bush

Adam Smith, de Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2012 | 03h06

WASHINGTON - A grande maioria dos americanos concorda que o presidente Barack Obama vem realizando um trabalho considerável no que diz respeito à segurança do país e tem uma visão correta do que seja a liderança dos EUA no mundo. Em contraposição, as propostas do ex-governador de Massachusetts Mitt Romney prometem fazer o país retroceder à doutrina desacreditada e à política temerária do governo de George W. Bush. Vimos esse filme antes e ele não acaba bem.

Por isso, foi particularmente preocupante, na quinta-feira, o fato de Romney ter participado de um encontro republicano para arrecadação de recursos oferecido pelo ex-vice-presidente Dick Cheney, em Wyoming. Na realidade, nada mais coerente, uma vez que Romney definiu Cheney como "uma pessoa dotada de prudência e sensatez".

Enquanto Romney estuda alguns possíveis companheiros para compor sua chapa, vale a pena lembrar que ele destacou Cheney como o "tipo de pessoa com quem gostaria" de trabalhar. Além disso, a política que Romney vem defendendo - como deixar tropas no Iraque e no Afeganistão por tempo indefinido, por exemplo - não passa de uma continuação da doutrina Bush-Cheney.

Não é nenhum segredo que Cheney foi o inspirador da fracassada política externa de Bush: desencadear a guerra no Iraque sem um plano para acabar com ela, intimidar os aliados dos EUA em todo o mundo e limitar-se a observar enquanto Irã e Coreia do Norte avançavam com seus programas nucleares.

Dos 24 assessores especiais de Romney em política externa, 17 trabalharam no governo Bush-Cheney. Se Romney vencer, é provável que muitas dessas pessoas passem a ocupar algum cargo em seu governo - perspectiva assustadora, considerando o legado deixado por elas.

Por exemplo, um dos assessores de alto escalão na campanha de Romney é John Bolton, que foi embaixador de Bush na ONU. Bolton personifica a temerária filosofia neoconservadora em grande parte responsável por lançar os americanos no Iraque sob falsos pretextos. Hoje, ele torce abertamente pelo fracasso da diplomacia com o Irã e está ansioso para mandar homens e mulheres de uniforme para a guerra. No ano passado, por exemplo, Bolton afirmou: "Seria nosso interesse derrubar esse regime da Síria". A ideia de Bolton e de outros funcionários da dupla Bush-Cheney num hipotético governo Romney se constituiria numa perspectiva apavorante para todos os americanos.

Os críticos talvez contestem que o emprego de ex-funcionários de Bush não significaria necessariamente que todas as suas sugestões seriam acatadas. Mas os eleitores só podem julgar os candidatos por aquilo que eles afirmam que farão se eleitos e a temeridade de Cheney está claramente refletida na linha da política externa que Romney tem defendido até agora em sua campanha.

Romney foi favorável à invasão do Iraque e, no ano passado, fez oposição ao fim da guerra. Em dezembro, enquanto Obama dava as boas-vindas às tropas de regresso do Iraque depois de nove anos de conflito, Romney declarou: "Na minha opinião, a retirada de todas as nossas tropas do Iraque é uma ideia infeliz. É mais do que infeliz, acho que é trágica". Cheney manifestou esse mesmo sentimento meses antes que terminasse a guerra no Iraque: "Seria uma verdadeira tragédia se saíssemos cedo demais, antes que eles estivessem preparados para cuidar de si mesmos".

A respeito do Afeganistão, embora Obama e todos os parceiros na coalizão internacional tenham concordado com um cronograma para a transferência da responsabilidade pela segurança para o controle do Afeganistão até o fim de 2014, Romney afirma que deveríamos permanecer no país indefinidamente, sem nenhuma estratégia para respaldar sua retórica e nenhum plano para trazer as tropas de volta. Mais uma vez, Cheney afirmou que não "precisamos nos preocupar em correr para a saída" no Afeganistão.

Romney, assim como Cheney, continua com a mesma mentalidade da Guerra Fria. Romney definiu a Rússia como "inimigo geopolítico número um" - afirmação extravagante que deixou sem fala os especialistas em política externa de todo o espectro político. A retórica de Romney em relação a Moscou soa como os comentários feitos por Cheney em 2008, quando afirmou que a Rússia representava "a ameaça da tirania, a chantagem econômica e a invasão militar" para a vizinha Ucrânia. Obama demonstrou ser um líder de pulso e coerente em questões de política externa e manteve a promessa de acabar com a guerra no Iraque com responsabilidade. Concentrou esforços na eliminação da Al-Qaeda e ordenou a audaciosa invasão para agarrar Osama bin Laden.

Romney na presidência promete fazer os EUA retrocederem para algo muito familiar: a doutrina Bush-Cheney - parte ingênua e parte arrogante -, entusiasticamente adepta da força militar, sem levar plenamente em conta as consequências. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É DEPUTADO DEMOCRATA PELO ESTADO DE WASHINGTON, MEMBRO DA COMISSÃO DE SERVIÇOS ARMADOS DA CÂMARA

 

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