Apaziguando os ânimos

Em intensa ebulição, era fatal que o caldeirão sírio acabasse por transbordar, espalhando à sua volta seu conteúdo mortífero. Subvertendo as fronteiras estabelecidas pelo acordo Sykes-Picot há quase um século, os extremistas do Estado Islâmico (EI) se instalaram na fronteira entre Síria e Iraque. Antes, a milícia xiita libanesa do Hezbollah foi combater ao lado do regime de Damasco, que também se beneficia do apoio ativo de centenas de conselheiros militares iranianos; além disso, milhares de jihadistas sunitas se instalaram a leste do Líbano, multiplicando os ataques contra o Exército regular desse país.

ISSA GORAIEB*, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2015 | 02h00

Com a entrada repentina e violenta dos israelenses nessa vasta guerra entre árabes e, mais comumente, entre muçulmanos, a tensão se amplia para setores ultrassensíveis do Golan sírio e do sul do Líbano, limítrofes com Israel.

No dia 18, um helicóptero israelense lançou dois mísseis contra um comboio de veículos que circulava próximo da cidade de Quneitra. Esta intervenção não foi a primeira, pois a aviação israelense já havia bombardeado, em território sírio, depósitos de armas de origem iraniana destinadas ao Hezbollah. No domingo, os ataques foram direcionados a terroristas que, segundo o governo israelense, preparavam atentados contra Israel. Foi um golpe duro contra o Hezbollah, que perdeu seis homens, entre eles um filho do ex-chefe militar da milícia, Imad Mughniyeh. As seis outras vítimas eram guardiães da revolução, entre eles um general dessa unidade de elite do Exército iraniano.

Por mais incrível que possa parecer, Israel pareceu de início surpreso com as mortes. Em resposta às ameaças de Teerã, que prometeu, em represália, uma tempestade de fogo, Israel declarou que desconhecia a presença de iranianos no comboio; ao mesmo tempo alertou contra qualquer tentativa de resposta, decretando, além disso, um alerta em sua fronteira com o Líbano.

Na quarta-feira, depois de dias de muito suspense, a milícia passou à ação e lançou diversos foguetes antitanques contra um comboio militar que fazia patrulha das Fazendas de Sheba, matando duas pessoas e ferindo sete. A resposta de Israel foi na forma de bombardeios de artilharia cujo alvo foram vilarejos libaneses localizados na fronteira e um obus matou um capacete-azul espanhol no sul do Líbano. Como de hábito, avisos, advertências e ameaças não faltaram de ambos os lados enquanto o Conselho de Segurança da ONU se reunia.

Referindo-se ao Irã, o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, afirmou que os responsáveis pelo ataque de quarta-feira pagariam por seus atos. Já o chefe do Hezbollah, Hassan Nasrallah, durante manifestação em memória dos mártires de Quneitra, multiplicou suas ameaças contra Israel.

Paradoxalmente, sinais discretos com vistas a um apaziguamento também não faltaram. Por intermédio dos capacetes-azuis da ONU, o Hezbollah comunicou a Israel que não estava interessado em continuar o ciclo de violência e uma resposta no mesmo sentido lhe foi enviada pelo mesmo canal. Paralelamente, o governo libanês obteve do embaixador americano em Beirute garantias de que não haveria uma escalada militar. Ao chegar em Beirute para reunião do Hezbollah, uma delegação parlamentar iraniana proclamou publicamente o empenho de Teerã para a estabilidade e segurança no Líbano.

Por que tantos baldes de água fria jogados de todos os lados sobre a brasa ardente? Porque nenhum dos protagonistas deseja, ao menos no momento, provocar uma conflagração maior. Semanas antes das eleições legislativas israelenses, Netanyahu não quer assumir o risco de uma nova aventura militar suscetível de provocar perdas. Envolvido na guerra civil da Síria, o Hezbollah dificilmente poderá abrir uma nova frente - a milícia vem sendo acusada pelos libaneses de ter arrastado o país para a guerra devastadora de 2006. E, gravemente afetado pela queda dos preços do petróleo, seu patrono iraniano desta vez não poderá reconstruir a periferia xiita de Beirute, arrasada há quase nove anos pela aviação israelense.

Está claro, enfim, que os mulás de Teerã estão mais preocupados em negociar com os EUA sobre seu programa nuclear. A conclusão impõe-se por si mesma: o jogo sangrento pode continuar, mas até nova ordem as regras não mudam. Terminou num empate... à espera do próximo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA DO 'L'ORIENT-LE JOUR', DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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