Apelo à emoção se contrapõe à série de crises

O atual governo tem seu ponto fraco, segundo o Datanálisis, na gestão do combate à criminalidade (83,5% de insatisfação), no combate à corrupção (75,7% de reprovação) e nas medidas de apoio ao investimento estrangeiro (64,8%). A esses problemas, somaram-se nas últimas semanas a volta da ameaça do racionamento de energia elétrica e uma crise na saúde pública - com uma nova greve de funcionários que o governo tenta debelar com o anúncio de aumento salarial de 30%. Além disso, a inflação não para de subir, devendo ficar em 2,2% em junho, e o nível do desemprego vem aumentando.

Roberto Lameirinhas, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2011 | 00h00

Diante desse quadro, a oposição teme que o chavismo instrumentalize a doença de Chávez com um apelo à emoção do eleitorado - estratégia que se mostrou possível na segunda-feira, durante o discurso que o líder bolivariano fez do balcão do Palácio Miraflores, horas depois de seu retorno de Cuba.

A multidão respondeu com fervor quase religioso às exortações de Chávez de "levar adiante a revolução contra qualquer força, até a da natureza".

Três cenários. Agustín Blanco Muñoz, professor da Universidade Central e colunista do jornal El Universal, lista três cenários que podem emergir da doença de Chávez até as eleições de 2012: "No primeiro, no caso de uma doença controlada, ele lançaria mão dos fins políticos que declarou no dia 5 (quando voltou de Cuba): vencer a "conspiração" e as divisões internas do PSUV, mostrando-se como o verdadeiro líder único, capaz de retornar sempre. No segundo, no caso de uma doença irreversível, sua luta seria a de um paciente impregnado de heroísmo e patriotismo que faria o impossível para deixar uma obra à altura de seus inspiradores: Bolívar e Fidel Castro. No terceiro, tudo não passaria de uma farsa e não há doença nenhuma. A mentira deixaria a descoberto quem está conspirando contra o poder central, criando-se as condições para a depuração do quadro político interno e para prolongar o poder do líder pelo tempo que lhe der na cabeça."

Há na oposição, porém, quem aposte que o câncer de Chávez - do qual detalhes fundamentais como sua localização exata e método de tratamento não são conhecidos - tira dele a aura de herói invencível, reduzindo-o à dimensão humana do caudilho. "Alguém já ouviu falar que o Superman teve de ser operado para extirpar um câncer?", ironizou o líder estudantil e um dos mais conhecidos opositores do regime no exterior Yom Goycochea.

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