Apelo ao boicote faz eleição legislativa no Irã virar plebiscito sobre o regime

Pela primeira vez desde a Revolução Islâmica de 1979, os iranianos vão hoje às urnas para eleger um novo Parlamento sob um boicote em massa da oposição. Com os principais candidatos da oposição na eleição presidencial de 2009 - Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karoubi - sob prisão domiciliar, e o Movimento Verde, que eles lideravam, banido, os reformistas moderados e tecnocratas pediram aos eleitores que não compareçam às urnas.

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / TEERÃ, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h00

Com isso, a eleição se transformou em um voto plebiscitário, de aprovação ou não do regime. O tamanho das filas vai indicar se o Irã continua sendo uma "democracia religiosa", como quer a propaganda do regime.

Os conservadores, a única força política, disputam poder entre si. De um lado, o líder espiritual, Ali Khamenei; de outro, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, que defende o regime islâmico, mas deseja mais poder para os líderes laicos, como ele, e menos para os aiatolás.

Ahmadinejad ganhou força com uma espécie de "Bolsa-Família" iraniana, que distribui US$ 40 por pessoa, com exceção dos 10% a 15% mais ricos. O programa foi desenhado para compensar a retirada, há um ano, dos subsídios a alimentos básicos, gasolina, gás, eletricidade e água. Em contrapartida, seu governo vem perdendo popularidade pelo aumento da inflação, que chegou a 22% ao ano. A taxa é consequência em parte das sanções internacionais contra o programa nuclear por ele alardeado, mas também da condução da economia, que privilegia a destinação dos negócios mais rentáveis para a Guarda Revolucionária, base de poder do presidente, em detrimento da iniciativa privada. Com a queda da produção e da importação, preços subiram.

Sua imagem também foi prejudicada por um escândalo envolvendo empresários e deputados que usavam cartas de créditos - supostamente endossadas pelo presidente - para fazer empréstimos que não pagavam.

Khamenei controla tentáculos importantes do Estado, como o Conselho Guardião, encarregado da vigilância do cumprimento dos preceitos islâmicos. O Conselho supervisiona as eleições e veta candidatos que tenham atitudes "anti-islâmicas".

Além dos oposicionistas, há informações de que cerca de 100 partidários do presidente Ahmadinejad teriam ficado nessa malha fina. Nenhum candidato critica abertamente Khamenei - do contrário, é barrado pelo Conselho.

Continuidade. Em Teerã, há poucos sinais de campanha. Moradores parecem mais preocupados com os preparativos do Nowruz, o ano novo persa, dia 20, e com as ameaças de um ataque israelense, do que com as eleições. "Não tenho esperança de que algo vá mudar", disse Hamid, de 25 anos, doutorando em matemática que, como outros entrevistados, não quis dar o sobrenome. "Um vai sair, outro vai entrar e tudo continuará igual."

Ele conta que votou em Ahmadinejad na sua primeira eleição, em 2005. "Na época, tinha muita esperança em ver justiça, principalmente para os mais pobres e a classe média baixa, mas não vi mudanças", disse. Em 2009, votou em Mousavi, que, segundo muitos acreditam no Irã, foi o mais votado, mas teria sido vítima de fraude. "Decepcionei-me mais uma vez", concluiu, explicando por que não votaria hoje.

"Não voto desde 1998", disse Leila, dona de casa de 32 anos. Seu último voto foi ao reformista Mohamed Khatami, eleito presidente em 1998. "Não o deixaram fazer nada", continuou Leila, referindo-se à pressão do líder espiritual contra as reformas que Khatami propôs. "Agora, sentimos que os candidatos foram pré-selecionados."

O bancário Bahman, de 40 anos, disse que votaria em um candidato que não apoia Ahmadinejad. "A situação é terrível cultural, social e economicamente." Sua mulher, Mariam, editora de livros de 40 anos, recusa-se a votar. "Temos de voltar às nossas raízes, nossa cultura", afirmou, numa crítica velada ao regime. "No começo, a Revolução foi boa. Depois, se corrompeu."

"Vou votar porque quero fazer parte do futuro do país", disse Mehd Kalakzada, um vendedor de carros aposentado, de 68 anos. "O governo está indo bem, tem ajudado a população com o subsídio", elogiou, referindo-se aos US$ 40 por mês. "Não gosto da inflação, mas Ahmadinejad não é o único responsável por ela, há outros fatores."

Seu amigo, um funcionário público aposentado que não quis dar o nome, discorda: "Se houver um Deus, tem de fazer algo para nos devolver a vida que tínhamos há mais de 30 anos (antes da Revolução), quando tudo era bom." Em um parque de Teerã, o homem advertiu: "Não deveria fazer essas perguntas. Há satélites nos escutando."

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