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Análise: apenas diálogo entre Washington e Teerã pode evitar conflito

Atualmente, radicais predominam nos EUA e no Irã e retórica belicosa traz risco de eclosão de uma guerra

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2019 | 05h00

O Irã parece pronto para retomar sua lenta, mas firme, marcha na direção da bomba atômica – dando aos falcões americanos como John Bolton mais motivos de agravo. Há quatro anos, EUA e Irã estavam num caminho diferente. Depois que Barack Obama estendeu a mão aos líderes iranianos, os dois lados se uniram e isso levou ao acordo, com a promessa de um recuo do programa nuclear por mais de uma década e possivelmente quebraria o ciclo de ameaças de um e outro que marcaram as relações dos dois desde a Revolução Iraniana, há 40 anos.

Hoje, os radicais predominam dos dois lados. A retórica belicosa retornou. Bolton e o secretário de Estado, Mike Pompeo, defendem o uso da pressão econômica para depor o regime iraniano e bombas para conter seu programa nuclear. Em Teerã, os mulás e sua Guarda Revolucionária não confiam nos EUA. Intensificam a repressão interna e atacam verbalmente no exterior. Nos dois países, a política é ditada por indivíduos intransigentes, com o risco de eclosão de uma guerra.

Talvez seja tarde demais para salvar o acordo nuclear. O Irã vem cumprindo o acordo, mas críticos nos EUA afirmam que as restrições temporárias acabarão legitimando seu programa nuclear e ele não impedirá o Irã de produzir mísseis ou de semear mortes e caos no exterior. No ano passado, o presidente Donald Trump retirou os EUA do pacto, considerando-o um “desastre”. Não é, mas o dano está feito.

Novas sanções contra o Irã e a ameaça de punir quem negociar com ele arruinaram o que restava do acordo. Os EUA cancelaram isenções que permitiam a alguns países continuar a comprar petróleo iraniano. E estão estendendo as sanções às exportações de metais industriais do Irã. Em vez de colher os benefícios da cooperação, o Irã é cortado da economia global. O valor do rial despencou, a inflação vem subindo e os salários estão em queda. A economia está em crise. 

Previsivelmente, em vez de colocar os líderes iranianos de joelhos, a beligerância americana levou-os a se tornarem mais valentes e determinados. Mesmo o presidente Hassan Rohani, que defendeu o acordo nuclear, começa a se expressar como um falcão. Tendo esperado por um longo tempo que pelo menos a Europa honrasse a promessa do acordo, ele agora está exasperado.

No aniversário da saída dos EUA do acordo, em 8 de maio, ele afirmou que o Irã começará a armazenar urânio com baixo teor de enriquecimento e água pesada, o que ,em quantidades suficientes, viola o acordo. Se não houver nenhum avanço econômico em 60 dias, disse Teerã, o Irã “não mais considerará qualquer limite” para o enriquecimento de urânio. Tudo isso sugere que o Irã ficará cada vez mais próximo de construir uma bomba atômica.

À medida que leva seu país para o precipício, Rohani tem alguns públicos em mente. O primeiro são seus políticos linha-dura, que detestam o acordo nuclear e o vem pressionando a agir. Ao que parece, ele os acalmou, no momento. O público mais importante são os EUA, com quem ele parece estar fazendo um velho jogo. Os líderes iranianos sempre consideraram o programa nuclear sua melhor moeda de troca com o Ocidente. Embora afirmem que ele é pacífico, inspetores da ONU encontraram evidências que sugerem o contrário.

A tecnologia é a mesma, seja para energia ou construção de uma bomba. As centrífugas do Irã podem produzir uma bomba mais rápido do que as sanções conseguirão derrubar o regime. Este é o raciocínio dos radicais. Mas a ameaça de obter uma bomba nuclear é inútil se isso não parecer plausível. E, em caso contrário, há o risco de provocarem uma ação militar dos EUA ou de Israel.

O potencial para um erro de cálculo é grande e vem aumentando. Tropas americanas estão a alguns quilômetros das forças apoiadas pelo Irã no Iraque e na Síria e navios de guerra estão cara a cara com as patrulhas iranianas no Golfo Pérsico. A violência levada a cabo por líderes do Irã pode ser uma provocação que levará os EUA a lançar um ataque militar. 

Um Irã com armas nucleares desencadeará uma proliferação nuclear no Oriente Médio. Bombardear o país não destruirá o know-how atômico iraniano, mas fará com que ele se torne clandestino, impossível de monitorar e, portanto, mais perigoso. A única solução permanente é a retomada de negociações. 

Os europeus podem ajudar Trump, insistindo para que o Irã se atenha ao acordo. Rohani diz agora estar disposto a discutir com os outros signatários um acordo que tenha base no atual. À medida que aumenta a ameaça de conflito, todos os lados necessitam voltar ao diálogo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

© 2019 THE ECONOMIST NEWSPAPER  LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

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