Apenas renúncia de Gonzales pode parar a crise, diz Senado

Diante do aumento do ceticismo de líderes do Senado e da pressão sobre sua renúncia, o secretário de Justiça dos Estados Unidos, Alberto Gonzales, defendeu na segunda parte da audiência desta quinta-feira, 19, sua permanência no cargo após o escândalo iniciado pela demissão de oito procuradores, que ele afirma ser uma decisão que não teve motivação política.Assim como fez de manhã, na primeira parte da audiência, Gonzales continuou dizendo que não renunciará, apesar de até mesmo republicanos conservadores estarem pedindo isto para que a crise chegue ao fim."O melhor modo de deixar tudo isso para trás é com sua renúncia", disse o senador Tom Coburn, também republicano conservador, a Gonzales."Eu estou comprometido em trabalhar com vocês para recuperar a fé e a confiança que vocês precisam para trabalhar comigo", afirmou o procurador-geral.Durante a audiência do Comitê Judicial do Senado, Gonzales afirmou que teve apenas um "papel limitado" nas discussões sobre quais e quantos dos 93 procuradores federais deveriam ser demitidos para a renovação do sistema judiciário."Fizemos grandes coisas (no Departamento de Justiça) e as continuaremos fazendo. No momento em que não acreditar que já não posso servir com eficiência, então renunciarei como procurador-geral", declarou Gonzales, que durante toda a audiência disse não ter nada a esconder e que sua decisão sobre as demissões "foi justificada".O presidente George W. Bush afirmou que Gonzales "demonstrou novamente que não aconteceu nada indevido", declarou a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, no final da audiência.Enquanto Gonzales estava no banco dos réus, Perino afirmou que Bush "tem plena confiança no procurador-geral, e será avisado quando isto mudar com relação a qualquer servidor público, mas não há nenhum indício disto".Os procuradores-gerais dos Estados Unidos são normalmente indicados por funcionários do estado, servem por períodos de quatro anos e estão "a serviço" do Executivo, que tem a capacidade de demiti-los quando quiser.Os senadores não questionam o poder legal do governo de demiti-los ou os substituir, mas querem saber se as demissões, anunciadas em dezembro de 2006, tinham motivações políticas, como diz a oposição, e, sobretudo, se Gonzales merece permanecer no cargo.Durante cerca de três horas, tanto democratas como republicanos advertiram Gonzales - o primeiro hispânico a ocupar o cargo - que ele deveria ser franco para recuperar a confiança do Congresso, onde um grupo cada vez maior exige a sua renúncia."Esta é sua oportunidade para esclarecer os fatos" sobre as reuniões, deliberações e documentos nos quais Gonzales teve alguma participação, declarou o senador Arlen Specter, o principal republicano do Comitê.PressãoA audiência parecia um julgamento no qual Gonzales tinha que responder a uma série de perguntas sobre as demissões, que se transformaram em um escândalo político.Gonzales respondeu pelo menos 40 vezes, com um "não me lembro", a perguntas sobre as demissões, em especial as de David Iglesias, do Novo México, e de Carol Lam, da Califórnia.Além disso, ele afirmou que no dia 11 de outubro de 2006 falou da fraude eleitoral no Novo México - algo que Iglesias investiga - com o presidente George W. Bush, e seu assessor político Karl Rove, mas não lembra da data exata na qual Iglesias foi acrescentado à lista de dispensas.Os senadores democratas Charles Schumer e Richard Durbin, por exemplo, destacaram as contradições entre o que Gonzales diz agora, os documentos divulgados por sua agência e as declarações de seu ex-chefe de pessoal, Kyle Sampson, que renunciou por causa do escândalo.Em declarações à Efe, Schumer afirmou que restam "muitas perguntas sobre o que aconteceu, que começou a se queixar (dos procuradores), que formulou a lista de demissões ou que a modificou".Dezenas de ativistas, vestidos de roupa de presidiários ou com roupas de policial, levavam cartazes nos quais exigiam a renúncia de Gonzales, a quem chamaram de "mentiroso" ou de "fantoche de Bush".ErrosGonzales admitiu que esteve "envolvido" no processo das demissões, mas de "forma limitada", e que elas respondiam ao desempenho dos procuradores.Ao ser interrogado sobre cada um dos demitidos, o secretário de Justiça fez referência a seus "erros de julgamento" e a "pobres gestões" em seus respectivos distritos.No entanto, ele reconheceu que cometeu erros e que o Departamento de Justiça deve melhorar os canais de comunicação com os procuradores federais.No entanto, o "mea-culpa" de Gonzales não pareceu satisfazer aos senadores. O presidente do Comitê, Patrick Leahy, disse que "foram feitas perguntas legítimas, mas as respostas foram decepcionantes".

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