Sergei Karpukhin/Reuters - 25/3/2015
Sergei Karpukhin/Reuters - 25/3/2015

'Apenas um boicote completo de petróleo da Rússia afetará governo Putin'

Professor do MIT e ex-economista-chefe do FMI defende sanções mais duras, principalmente por parte da Europa, contra o governo Vladimir Putin

Entrevista com

Simon Johnson, professor do MIT e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI)

Ricardo Leopoldo / Broadcast, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 13h03

O presidente americano, Joe Biden, tomou uma excelente decisão ao proibir as importações de petróleo e derivados da Rússia pelos Estados Unidos, como uma forma de elevar as retaliações contra a escalada da guerra na Ucrânia promovida pelo Kremlin, comentou em entrevista exclusiva ao Broadcast Simon Johnson, professor do MIT e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). “É hora de a Europa intensificar as sanções contra a Rússia. O futuro daquele continente está em jogo. Pare Vladimir Putin agora ou viva com as terríveis consequências para sempre.”

Na avaliação de Johnson, as sanções contra a Rússia deveriam ser intensificadas em nível global, a ponto de não permitir mais que o país registrasse lucros com a venda de petróleo no mundo, o que ajuda a financiar a invasão militar da Ucrânia. O professor admite que tais medidas provocariam a alta da inflação mundial, mas a alternativa é muito pior. “Obviamente, isso dificulta a vida, mas o custo para os ucranianos é completamente diferente. Há crianças sendo mortas em corredores para deixar cidades ocupadas enquanto deveria haver cessar-fogo durante esse processo. Este é um custo irreversível que ocorre todos os dias.”

Para o acadêmico, o governo dos EUA também deveria adotar medidas para coibir que russos utilizem criptoativos para escapar das restrições financeiras impostas pelas economias avançadas. Ele defende a adoção de um arcabouço regulatório robusto naquele país para estes ativos digitais, cuja supervisão deveria ocorrer ao mesmo tempo pela SEC, CFTC e Federal Reserve. Leia os principais trechos da entrevista:

Qual é a sua opinião sobre a decisão dos EUA de proibir importações de petróleo da Rússia para o mercado americano e a posição dos principais países europeus que não adotaram a mesma medida?

Esta é uma excelente decisão e mostra uma grande liderança. É hora de a Europa intensificar as sanções contra a Rússia. O futuro daquele continente está em jogo. Pare Vladimir Putin agora ou viva com as terríveis consequências para sempre. Qualquer avanço expressivo dos preços do petróleo aumenta a inflação, o que tenderia a levar o Federal Reserve a agir contra isso. Ao mesmo tempo, podem ocorrer alguns efeitos contracionistas na economia global. Todas as pessoas com quem conversei no Fed apontam que é muito cedo para avaliar impactos definitivos da crise. O conflito entre Rússia e Ucrânia vai durar muito tempo. Existem consequências negativas sobre a Europa e sua economia. Os efeitos sobre os EUA ainda não são tão claros.

Você avalia que há três cenários para a adoção de sanções sobre o petróleo exportado pela Rússia para reduzir os impactos da guerra. Quais são eles?

No primeiro, os EUA proíbem a compra de petróleo da Rússia e passam a adquirir o produto de outros fornecedores pelo mundo. Mas estas medidas não teriam muito efeito, pois a guerra continuaria, o preço internacional do petróleo se manteria em nível bem alto, o que favorece a Rússia. No segundo cenário, os EUA proíbem compras da commodity da Rússia e adotam medidas adicionais para proibir instituições financeiras de viabilizar negócios envolvendo o petróleo daquele país, o que levaria o governo de Vladimir Putin a vendê-lo com grandes descontos. Talvez ocorra um reequilíbrio no mercado de petróleo. Acho que a conversa com os países membros da OPEP deveria ser se eles querem ajudar neste esforço. O terceiro cenário, que recomendo, é um boicote completo de todos os produtos energéticos vendidos pela Rússia, que são petróleo e gás. O inverno na Europa está quase no fim e o problema com o fornecimento para o continente terá menores impactos no curto prazo.

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Nesse caso, teremos alguma pressão inflacionária, especialmente nos países ocidentais, o que não queremos. Obviamente, isso dificulta a vida, mas o custo para os ucranianos é completamente diferente. Há crianças sendo mortas em corredores para deixar cidades ocupadas enquanto deveria haver cessar-fogo durante esse processo. Este é um custo irreversível que ocorre todos os dias. Se a inflação impede os EUA e outros países de adotar as sanções corretas contra a Rússia, então nós perdemos muito mais do que com a alta de preços.

Você considera que o preço do petróleo continuará bem alto ao longo deste ano?

Se a Rússia decidiu se comportar além de quaisquer limites imagináveis com ações irresponsáveis, tudo será possível neste front e o preço do petróleo subirá muito. Vamos ser claros: o cenário básico aponta que o preço do petróleo avançará e ficará mais elevado do que antes da guerra. Não sabemos o que acontecerá com o fornecimento russo ao mercado. Mas o que podemos prever é que existem maneiras de reduzir os lucros que a Rússia recebe com as vendas desta commodity. O que afetará de fato aquele país é o lucro zero. Não importa qual será o preço do petróleo nesta circunstância. Zero vezes um número é zero. E o objetivo aqui é remover esta receita da commodity. É incrível, mas as nações ocidentais gastam mais de um US$ 1 bilhão por dia com o petróleo da Rússia, o que financia a sua máquina da guerra.

Como você avalia o fato de muitas pessoas na Rússia adotarem o mercado de criptoativos como um refúgio para evitar as sanções financeiras?

Este será um grande teste para a comunidade que lida com criptoativos, o que também envolve autorregulação de empresas do setor. Não há posição neutra em uma guerra. Ou ela impede a lavagem de dinheiro de apoiadores de Putin ou permite que ela ocorra. Veremos em uma semana ou duas qual a postura que assumirá.

Você pondera que a guerra na Ucrânia e as sanções financeiras à Rússia aumentariam ou diminuiriam os preços dos principais criptoativos?

Eu acredito que os criptoativos continuarão em um ambiente marcado por muita volatilidade. Há muitas variáveis influenciando este mercado. Eu considero que o governo dos EUA deveria ser duro com empresas que permitem transações financeiras com os russos, incluindo criptoativos. Precisamos avaliar quais são as próximas avenidas que eles tentarão utilizar para fugir das sanções. Porém, basta negar em nível global todas as operações realizadas por eles. E será preciso implementar proteções para coibi-las. Há também a reação da opinião pública contra quem faz negócios com a Rússia atualmente. A Shell está enfrentando pedidos de boicote porque comprou petróleo daquele país com desconto na semana passada.

Sobre a regulamentação de criptoativos, você considera que os EUA e a Europa adotarão em breve um conjunto de normas sobre estes ativos para conter seu crescimento exponencial, o que pode trazer riscos à estabilidade financeira global?

Antes da guerra na Ucrânia já existia uma preocupação sobre o tema. Mais nos EUA do que na Europa, inclusive sobre as stablecoins. Eu acredito que está na agenda das autoridades regulatórias. Na minha opinião, as stablecoins devem ser tratadas com as mesmas normas que são aplicadas aos bancos. Mas estas novas normas podem enfrentar restrições políticas nos EUA. É preciso um arcabouço regulatório robusto para evitar riscos sistêmicos de mercado, o que permitiria às autoridades federais ter salvaguardas bem rígidas, inclusive sobre a liquidez dos cripto ativos. As reservas que stablecoins possuem, além do dólar, podem ser compostas também por títulos de dívida pública, mas de curto prazo. Caso contrário, estaremos permitindo o surgimento de graves problemas. É preciso combater o uso destes ativos para lavagem de dinheiro, adotar medidas como Conheça Seu Cliente (KYC, na sigla em inglês). Por outro lado, eu acredito que há algumas pessoas na indústria de criptoativos que querem atuar de forma sensata.

Como você avalia comentários de dirigentes das maiores exchanges de criptoativos no mundo que defendem apenas um agente regulador nos EUA sobre este mercado e stablecoins publiquem diariamente a composição de suas reservas, sobretudo em dólar?

Transparência é importante. Mas se eles defendem apenas um agente regulador no país, boa sorte. Nos EUA não funciona assim. Há uma divisão de atividades de supervisão por várias agências federais. A SEC e a CFTC são ótimas instituições e elas podem trabalhar juntas para obter resultados ainda melhores. Acredito que o Federal Reserve também deveria atuar nesta área, pois tem responsabilidade sistêmica. Seria positiva uma combinação de ações regulatórias desta tríade.

Como você avalia a perspectiva para que as principais CBDCs sejam adotadas em alguns anos, especialmente porque a China já adotou de forma experimental o yuan digital, como ocorreu com o público que acompanhou de perto naquele país os jogos olímpicos de inverno no mês passado?

O que acontece na China é muito interessante, mas outros países estão avançando lentamente nesta área. Acredito que outras nações estão esperando para ver o que ocorrerá com o yuan digital, o que considero como bastante adequado.

Você acredita que os investidores em criptoativos vão começar a abandonar em breve aqueles que são obtidos pelo consenso de prova de trabalho, como o Bitcoin, sobretudo devido aos elevados impactos ambientais causados pelo grande consumo de energia, para investir em ativos obtidos pela prova de participação?

Quando eu comecei a estudar criptoativos, em 2015, eu ouvi de um amigo que o consenso de prova de trabalho já era problemático por várias razões. Mas ele disse para eu não ficar preocupado, pois a prova de participação seria adotada logo. Já passaram vários anos e tal mudança ainda não aconteceu. Para incentivar esta migração de prova de trabalho para prova de participação seria muito sábia a adoção de algum tipo de imposto sobre as emissões de carbono.

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