Apesar da dor, um futuro brilhante espera pelo Japão

A dor, o sofrimento e os transtornos provocados pelos violentos terremoto e tsunami que atingiram o Japão não podem ser subestimados.

Nathan Gardels, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2011 | 00h00

Mas se alguém conseguir ignorar por um momento a devastação, verá nisso tudo um aspecto positivo. A necessidade de reconstruir uma grande área do Japão criará oportunidades imensas para o crescimento econômico doméstico, particularmente o desenvolvimento de tecnologias que consomem pouca energia, e ao mesmo tempo estimulará a demanda global e vai acelerar a integração do Leste da Ásia.

O Japão está imerso na estagnação há anos, apesar dos vigorosos programas de estímulo aprovados pelo governo e as taxas de juro equivalentes a zero porque, numa economia desenvolvida e avançada como esta, o que se tem verificado é uma demanda excessivamente fraca que possa produzir receitas suficientes para atrair o investimento privado.

Daí as famosas "pontes para lugar nenhum" e outros projetos que não deram em nada.

Ao dar um empurrão na economia madura do Japão, a Mãe Natureza fez o que a política fiscal e o banco central não conseguiram. Agora existem mais pontes para algum lugar a serem erigidas. Cidades e regiões inteiras terão de ser reconstruídas totalmente, de habitações e prédios comerciais a estradas, linhas ferroviárias, redes de informação, redes elétricas e até mesmo sistemas de alarme contra tsunamis que precisam ser modernizados e digitalizados. Plataformas como o Twitter e Facebook precisarão ser integrados num sistema apoiado em velhas tecnologias como sirenes de alerta e transmissões por rádio e TV.

O resultado da criação dessa nova riqueza será dinheiro no bolso dos japoneses para adquirirem bens e serviços globais.

E essa nova demanda com certeza atrairá pilhas de dinheiro em termos de oportunidades de investimento, desde os fundos comuns privados globais até bancos americanos e fundos soberanos da China. Num jantar em Hong Kong, há algumas semanas, um dos maiores investidores da Ásia queixou-se da escassez de bons negócios na Ásia fora da China.

A própria China tem muitos fundos excedentes e não sabe o que fazer com eles. O investimento estrangeiro direto por parte da China na reconstrução do Japão, país muito endividado, deverá aproximar e integrar as segunda e terceira maiores economias do mundo, de uma maneira que a reconciliação política não conseguiu em circunstâncias normais.

As maiores oportunidades estão na construção, a partir dos escombros, de cidades e infraestrutura inteligentes, mais econômicas em termos de energia e que sejam as mais avançadas do mundo. O Japão não é o Haiti nem os Estados Unidos. Apesar da longa estagnação, o país reteve sua admirável habilidade no campo da engenharia.

Na verdade, o país está excepcionalmente posicionado para uma recuperação verde. Enquanto o mundo tem se concentrado no terrorismo islâmico ou no milagre do crescimento chinês, o Japão está engajado numa revolução silenciosa como incubador de tecnologias do futuro que implicam baixo consumo de energia.

O Japão é responsável por 50% da produção de energia solar do mundo. O país utiliza 20% menos energia para produzir uma tonelada de aço do que os Estados Unidos, e 50% menos do que a China. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA DO "GLOBAL VIEWPOINT"

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