Apesar de aliança, Pinochet espionou ditadura brasileira

Embaixador no Brasil conseguiu cópia de relatório 'ultrassecreto' do Conselho de Segurança Nacional, comprovam documentos

Roberto Simon, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2013 | 02h03

SANTIAGO - O ditador chileno Augusto Pinochet, que chegou ao poder há 40 anos com amplo apoio brasileiro, obteve por meio de espionagem informações estratégicas dos arquivos de Brasília.

Um documento de circulação "ultrassecreta" do Conselho de Segurança Nacional brasileiro - colegiado ligado ao Palácio do Planalto e responsável pelos assuntos mais sensíveis do País - foi parar nas mãos do próprio Pinochet, em meados de 1975. A prova da "bisbilhotice" do regime militar do Chile contra a ditadura brasileira está em telegramas chilenos secretos e recentemente liberados, aos quais o Estado teve acesso.

O embaixador do Chile em Brasília após o golpe de 1973, Hernán Cubillos Leiva, conseguiu uma cópia do relatório "Conceito Estratégico Nacional", que detalhava os princípios de segurança interna e externa do regime militar brasileiro. O documento está hoje no Arquivo Nacional de Brasília. Nos despachos a Santiago, Cubillos não explica como conseguiu chegar ao dossiê "ultrassecreto", a classificação mais restrita dentro do Estado brasileiro, dizendo apenas que o roubo da informação foi produto de suas "gestões".

"Rogo fazer chegar uma cópia ao sr. presidente da República", escreveu o embaixador no Brasil ao final de seu telegramas à chancelaria. A resposta de Santiago à embaixada em Brasília veio coberta de elogios ao feito de Cubillos. O documento brasileiro tinha sido lido "com atenção" nos círculos do poder chileno, escreveu a chancelaria. Mas havia um problema: faltavam algumas páginas. Consultado, Cubillos respondeu que não conseguiria obter a parte perdida.

O caso de espionagem ocorreu num momento de ampla cooperação entre Chile e Brasil, como reconhecia o embaixador chileno. Em um outro telegrama secreto enviado a Santiago na mesma época, Cubillos relata como diplomatas brasileiros ajudavam chilenos em organizações internacionais e louvava as relações entre os militares dos dois lados.

"O Brasil apoiou praticamente todas as candidaturas chilenas apresentadas em organismos internacionais, tanto regionais quanto mundiais. Do mesmo modo, o Brasil apoiou e colaborou com o Chile para fazer frente à agressão internacional de que (fomos) vítima (após o golpe)", escreveu o diplomata em Brasília, em junho de 1975.

"Também é de interesse destacar o excelente plano das relações (...) entre as Forças Armadas dos dois países, que teve como resultado o significativo intercâmbio de visitas e experiências, além do apoio institucional que nos têm brindado."

No fim de novembro daquele ano, seria realizada em Santiago a primeira reunião do Plano Condor, a macabra aliança entre países do Cone Sul para internacionalizar a repressão a opositores políticos nos anos de chumbo.

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