Apesar de 'clima favorável', Colômbia rejeita negociar com as Farc

Para especialistas, mesmo com o tom duro do governo o momento é propício à retomada das conversas.

Leandra Felipe, BBC

10 de janeiro de 2012 | 21h00

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, rejeitou nesta terça-feira a possibilidade de negociar de imediato um acordo de paz com as Farc (Forças Revolucionárias da Colômbia), após um aceno da guerrilha.

"Não queremos ressuscitar as fracassadas conversações de paz de 10 anos atrás", disse Santos, referindo-se ao chamado do atual líder das Farc, Timochenko, para retomar as negociações realizadas entre o governo e a guerrilha entre 1998 e 2002.

Em resposta ao comunicado das Farc publicado na segunda-feira pela Anncol (agência de notícias do grupo na internet), Santos disse que não vai aceitar mais retórica e que o país quer ações claras em prol da paz.

"Que se esqueçam da ideia de um novo Caguán", postou o presidente em sua conta no microblog Twitter, em referência à área desmilitarizada durante as antigas negociações.

No comunicado, a guerrilha pede a retomada da mesa de conversações de Caguán, processo liderado pelo ex-presidente Andrés Pastrana, que antecedeu Álvaro Uribe, no município de San Vicente del Caguán, Departamento (Província) de Caquetá, no sudeste do país.

Analistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que apesar do tom duro de Santos, um clima favorável para novas negociações está sendo criado.

Para o cientista político da Pontifícia Universidad Javeriana, Eduardo Pastrana, as Farc erraram ao mencionar o processo de Caguán em seu aceno para a retomada das conversas.

"As Farc escolheram a pior maneira possível, porque a população ainda se lembra do fracasso de Caguán", destacou.

"Foi lá que a guerrilha descumpriu sua palavra e, em meio ao processo de paz, atacou civis, continuou com os sequestros e deu mais combustível ao radicalismo que viria depois com o militarizado governo de Álvaro Uribe", avaliou o cientista político.

Uribe apertou o cerco contra as Farc assim que começou a governar o país em agosto de 2002, ajudando a desmontar militarmente a guerrilha. Apesar do relativo sucesso em sua estratégia, foram registradas várias violações de direitos humanos no período.

Desvantagem

Eduardo Pastrana também lembra que nas negociações de Caguán, as Farc tinham vantagem militar e estratégica.

"Na época a guerrilha tinha muito mais poder e era o Estado quem estava fragilizado. Agora vivemos o contrário. O Estado tem mais poder militar e as Farc está em visível desvantagem", destacou.

O especialista em conflitos Ariel Ávila da Corporación Nuevo Arco-Íris disse à BBC Brasil que a resposta de Santos ao chamado das Farc foi previsível.

"Santos não diria algo receptivo às Farc, porque a sociedade colombiana rejeita fortemente o que aconteceu durante o processo de paz de Caguán" disse Ávila.

Ambiente favorável

No comunicado as Farc reapresentaram sua agenda propositiva para negociar com temas como privatizações, depredação ambiental, doutrina militar, liberdade comercial e de investimentos e ainda sua participação política no país.

Para Ariel Ávila, dez anos depois da última negociação, as Farc devem caminhar para um tom mais flexível e que o ambiente para dialogar está sendo construído.

"Os dois lados estão aparando arestas e tanto o governo como a guerrilha podem ceder mais. Do lado das Farc, agora em desvantagem, é possível que eles tenham mais flexibilidade para negociar e que apresentem uma agenda mais modesta", avalia o especialista.

Ávila acredita que uma ação importante para que um processo de paz se reinicie é a libertação dos reféns.

"Os reféns são a principal moeda de troca que as Farc ainda têm. O governo vai pressionar pela liberdade dos sequestrados. Para haver diálogo, a guerrilha que, por exemplo, prometeu libertar seis reféns no último mês de dezembro, precisa cumprir e avançar nesta liberação", finaliza. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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