Apesar de denúncias, votação foi tranquila

Filas bem organizadas de eleitores se espalhavam ontem dentro de escolas e outros prédios públicos de Assunção, enquanto observadores paraguaios e internacionais supervisionavam de perto as urnas. Formalmente, o voto no Paraguai é obrigatório, mas, até hoje, quem descumpre o dever cívico não sofre nenhum tipo de sanção. Pouco mais de 60% dos eleitores vão às urnas.

ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h07

No Colégio Dahlquist, ao lado de uma comunidade pobre de Assunção, José Ayala, de 22 anos, votava pela primeira vez na vida - mais da metade dos 3,5 milhões de eleitores paraguaios tem menos de 40 anos. "Está tudo muito organizado e não vi nenhum tipo de problema", disse Ayala, que vestia uma camisa do Corinthians (mas frisava que, no Paraguai, seu time é o Olimpia). "Nunca venderia meu voto, pois temos muitos problemas para resolver, a começar pela educação", disse ele, que não quis revelar seu candidato.

Questionada em quem votaria, Nilse Gabriela, uma jovem de 18 anos com um filho de 3 a tira colo, respondeu sem hesitar o nome de Horacio Cartes, do Partido Colorado. Segundo ela, "Cartes vai trabalhar para os pobres", embora seja um dos homens mais ricos do Paraguai. Como todos os paraguaios que haviam votado, Nilse tinha o dedo marcado de azul quando deixava o colégio, uma forma de impedir que pessoas participem mais de uma vez.

Para Sixto Flores, o delegado do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE) no local, a eleição de ontem estava mais organizada que a de 2008, quando o ex-bispo Fernando Lugo rompeu a hegemonia de sete décadas dos colorados no Paraguai. Flores mostrou a merenda fechada que as autoridades forneceram desta vez. Da última, delegados de partidos, mesários e supervisores tinham de sair para comprar comida, uma brecha que permitia interferências indevidas.

Um delegado do Partido Colorado que acompanhava a votação reclamou que o rival da Frente Guasu (coalizão de grupos de esquerda) estava arrancando fichas de matrícula dos eleitores. Um funcionário do TSJE foi averiguar o caso, sendo seguido pela escola por um grupo de repórteres paraguaios à caça de violações. Ao final, apenas repreendeu o emissário da Frente Guasu.

Dúvidas. Segundo vários observadores internacionais consultados pelo Estado, os problemas não costumam ocorrer nos centros de votação, mas da porta para fora, sobretudo com a compra de votos. Práticas desse tipo foram registradas na região do Chaco, no norte, e em outros lugares mais afastados.

Além do presidente, paraguaios escolheram ontem senadores, deputados, membros do Parlasul (Parlamento do Mercosul) e governadores. Todas as votações têm apenas um turno e o sistema é de lista fechada: vota-se no partido, e não em um candidato específico. Para cada cargo, há uma cédula do tamanho de uma folha de papel A4. Os votos, depois, são digitalizados e enviados ao Tribunal Superior de Justiça Eleitoral.

No colégio de classe média Nuestra Señora del Perpetuo Socorro, no centro da capital, a votação era na quadra poliesportiva, com as cabines montadas nas laterais. Eleitor dos liberais, o empresário José Gonzales, de 34 anos, elencou a corrupção como o pior problema do Paraguai. "Sem melhorar isso, nunca conseguiremos avançar em coisas como educação e saúde", disse Gonzales, enquanto aguardava na filas.

Aos 85 anos e de cadeira de rodas, Stella Mares Estigarribia foi ao colégio católico depositar seu voto. Integrante de uma família tradicional de colorados e descendente do marechal José Felix Estigarribia, herói de guerra do Paraguai da primeira metade do século 20, ela disse que apenas Cartes "pode trazer a mudança de que tanto precisa" o país.

"Uma amiga minha de 93 anos também votou por aqui", dizia Stela, tentando ver se a colega ainda estava entre a multidão. "Todas nós viemos."

'EPP'. A imprensa paraguaia noticiou ontem um suposto ataque do Exército do Povo Paraguaio (EPP) - pequeno grupo armado ultrarradical de esquerda - em Concepción, o qual teria deixado um morto.

Não há confirmação oficial sobre o ocorrido e tampouco está claro se o episódio tem relação com as eleições. / R.S.

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