REUTERS/Yves Herman
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Apesar de esforços do governo belga, subúrbio de Bruxelas é refúgio seguro para jihadistas

Pelo bairro de Molenbeek passaram terroristas ligados a ataques no Afeganistão, em 2001, em Madri, em 2004, e a museu judaico de Bruxelas, em 2014; autoridades prometem atuação intensa na área

O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2015 | 10h55

BRUXELAS - A Bélgica, onde sete pessoas foram presas em conexão com os ataques de sexta-feira em Paris, se apresenta como um reduto de radicais islâmicos, apesar dos esforços para erradicar um fenômeno "gigantesco", segundo o primeiro-ministro Charles Michel.

Dois franceses que residiram em Bruxelas, um deles no bairro de Molenbeek, estão entre os autores dos ataques em Paris. Além disso, "dois automóveis registrados na Bélgica" foram encontrados pelos investigadores franceses, "um próximo à casa de espetáculos Bataclan e o outro perto do cemitério parisiense Père Lachaise", explica a procuradoria federal belga.

"A investigação demonstrou que esses dois veículos foram alugados "no início desta semana na região de Bruxelas", de acordo com a mesma fonte.

A Bélgica, pequeno país de 11 milhões de habitantes é, na Europa, o que conta com o maior número de voluntários que se juntaram aos jihadistas na Síria e no Iraque em proporção à sua população. Foram identificados 494 "jihadistas" belgas: 272 estão na Síria ou no Iraque, 75 são dados como mortos, 134 retornaram e 13 estão voltando, de acordo com os serviços de segurança.

O mais surpreendente é que a Bélgica, apesar do reforço da sua legislação antiterrorismo, do desmantelamento de canais de recrutamento e células terroristas desde a década de 1990, continua a ser um refúgio relativamente seguro para os jihadistas.

Repressão. "A Europa tornou-se sem fronteiras, e é normal que eles (os autores de ataques) se beneficiem desta característica. Mas temos de deixar de ser uma base para aqueles que querem travar uma guerra na Europa", declarou no domingo o prefeito de Bruxelas, Yvan Mayeur.

Isto é particularmente comum na aglomeração de Bruxelas, em Molenbeek-Saint-Jean, onde vive uma grande comunidade muçulmana, incluindo uma minoria de radicais islâmicos. "Nesta pequena minoria, existem figuras conhecidas a nível europeu, que atraem pessoas", afirmou o especialista em terrorismo, Claude Moniquet.

"Constato que há quase sempre uma relação com Molenbeek, o que é um problema enorme. Nos últimos meses, várias iniciativas foram tomadas na luta contra a radicalização, mas precisamos de mais repressão", reconheceu na televisão flamenga VRT o primeiro-ministro, Charles Michel.

"Vamos trabalhar intensamente com as autoridades locais. O governo federal está pronto para fornecer mais recursos para melhorar a situação no terreno, no país e em áreas onde há problemas", prometeu.

Anonimato fácil. Também passaram por Molenbeek em 2001 os assassinos do comandante Massud, no Afeganistão, bem como Hassan El Haski, condenado por ser um dos líderes dos tentados de 2004 em Madri (que deixou 191 mortos e 1.800 feridos), e ainda Mehdi Nemmouche, o principal suspeito do atentado 

ao Museu Judaico de Bruxelas, em maio de 2014.

O autor do ataque frustrado em agosto no trem que seguia de Amsterdã para Paris, Ayoub El-Khazzani, também passou pela localidade, onde reside sua irmã, antes de tentar atacar o trem. Além disso, uma célula terrorista desmantelada em janeiro, em Verviers (leste), também tinha laços em Molenbeek.

"Eles não vêm todos daqui e, na maior parte, estão apenas de passagem", defendeu-se Françoise Schepmans, que pertence ao Partido Liberal do primeiro-ministro. "Em algumas áreas, a população é muito densa, composta 80% por pessoas do norte da África. O anonimato é mais fácil para as pessoas com más intenções que estão de passagem", declarou ao jornal La Dernière Heure. / AFP

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