REUTERS/Abdalrhman Ismail
REUTERS/Abdalrhman Ismail

Apesar de guerra, Damasco mantém aura de normalidade

DAMASCO - Adnan Gimaah talvez seja o vendedor de doces mais amargo em todo o centro velho de Damasco. Se um cliente perguntasse sobre a qualidade de seus produtos, ele resmungaria impaciente. Se pechinchassem demais, ele não pensaria duas vezes em mandar os clientes embora. Na hora de bater papo, a única coisa que ele sabia fazer era reclamar da conta de telefone da sua esposa, depois de ligar repetidas vezes para o filho que busca refúgio na Alemanha. “Ela está me custando uma fortuna”, afirmou.

Declan Walsh - The New York Times*, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2016 | 11h18

Ainda assim, era impossível não perceber o humor por trás de sua postura ranzinza, e os clientes pareciam gostar do que viam. O mau humor combina perfeitamente com o clima da cidade: uma capital cansada, com uma atmosfera cada vez mais pesarosa, envolta em um clima de guerra interminável.

Damasco está protegida do pior da violência e do caos da Síria, embora esteja repleta de pessoas que sofreram diretamente com a guerra - gente deslocada que busca abrigo. Por isso todas as coisas, até mesmo os doces, deixavam um gosto amargo de pessimismo na boca. “Como assim, do que isso é feito? Você não está comendo?”, reclamou Gimaah com uma senhora em um sofá nos fundos da loja, comendo uma amêndoa coberta de açúcar.

O nome da mulher era Najieh Dahir, e ela veio de Deir es-Zor, uma cidade sitiada no extremo leste do país. Ao fugir para Damasco, foi forçada a deixar para trás a filha, presa em um bairro controlado pelo Estado Islâmico, e vivia com medo. “Um movimento em falso, e eles cortam a sua mão. Ou então podem transformá-la em escrava”, afirmou a mãe sem titubear. Ela também havia deixado o marido para trás, mas não se importava tanto com isso. “Ele já não me serve mais de nada. Não me mandou nenhum dinheiro. Espero que uma bomba exploda nele”, afirmou impaciente.

Gimaah, saboreando o humor negro da cliente, deixou escapar um sorriso discreto. Dahir pediu dois quilos de amêndoas e voltou para casa apressada.

Uma foto do presidente da Síria, Bashar Assad, podia ser vista em uma rua próxima. Assad é uma presença constante no Estado que comanda com mão de ferro, observando a tudo e a todos nos retratos em salas de imigração, nas ruas movimentadas e nas bases militares desoladas. Ele sempre usa roupas diferentes: um estadista vestido impecavelmente, um comandante militar experiente, com uniforme cáqui e óculos escuros.

Contudo, em meio a uma guerra que entra no sexto ano, Assad agora também aparece ao lado de líderes internacionais que tiveram uma participação fundamental em sua manutenção no poder: Hassan Nasrallah, do Hezbollah - a milícia xiita do Líbano -, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, cujos aviões de guerra realizaram ataques devastadores nas áreas controladas pela oposição, incluindo provavelmente o bombardeio de um hospital em Alepo, que matou ao menos 55 civis.

Assad comanda o país de um palácio com vista para Damasco, cidade que, apesar de continuar em guerra em alguns subúrbios dominados pelos rebeldes, conseguiu preservar um ar tênue de normalidade nas áreas centrais. Festas de casamento luxuosas enchem as ruas da cidade nos fins de semana; os ricos se juntam para jantar e fumar narguilés em um complexo de restaurantes e bares próximos ao hotel Four Seasons.

De tempos em tempos a ópera apresenta shows de música, e os estúdios de TV não interromperam as novelas, que fazem muito sucesso no mundo árabe. Há poucos sinais de que os russos tiveram um papel militar tão decisivo nos últimos seis meses.

Mas na maioria dos casos, a Síria, que já foi um país de classe média, conta com uma parcela mínima da população capaz de sustentar esse tipo de vida. A crise levou inúmeros jovens a buscar refúgio no exterior, seja para trabalhar ou para escapar do serviço militar. Mais da metade da população síria de antes da guerra acabou deslocada.

Os poucos que sobraram penhoraram o ouro - tradicionalmente o último recurso das famílias sírias - para cobrir os custos de vida. “Tudo está mudando. Dá para sentir. As pessoas estão cansadas e o Estado está sob pressão. É um milagre que a cidade resista”, afirmou Waddah Abd Rabbo, editor-chefe do Al Watan, um jornal privado.

Em toda Damasco, pôsteres com propagandas das últimas eleições parlamentares cobrem as paredes. Entretanto, poucas pessoas falam abertamente sobre política, especialmente com estrangeiros, que sempre são acompanhados por um oficial do Ministério da Informação.

Eles não se entusiasmaram com as negociações de paz realizadas em Genebra, que no melhor dos casos parecem ser uma mera abstração, e no pior, um exercício de cinismo político, de acordo com a maioria dos sírios. Mas a frustração com as dificuldades da guerra nunca está longe da superfície e até eventos improváveis podem ser sugados pela paranoia política da guerra.

Depois que um incêndio tomou conta de uma esquina do centro velho, queimando 100 lojas e empresas, a internet ficou repleta de rumores de que o Irã, outro dos países aliados de Assad, teria sido responsável pelo desastre. A explicação oficial foi muito mais prosaica: problemas elétricos. Os afetados pelo incêndio sofreram mais um duro golpe.

Alguns sírios tentam ver além das angústias do país, preferindo considerar os eventos no contexto histórico. A Grande Mesquita da cidade, local magnífico e considerado um dos mais sagrados do islamismo, atraía incontáveis peregrinos no passado. Agora, pouca gente vai até lá, mas a mesquita segue intocada – ao contrário da Mesquita de Umayyad, em Alepo, destruída na batalha.

Recentemente, uma revoada de pombos subia e descia em uníssono no velho pátio da mesquita. No interior, o zelador, Salim al-Rifai, de 85 anos, observava um pequeno templo que, de acordo com a lenda, guarda a cabeça de João Batista.

A mudança testemunhada pela Síria nos últimos cinco anos é “a diferença entre o céu e a terra”, afirmou Al-Rifai, segurando um terço islâmico entre os dedos. Mas até mesmo as piores calamidades não duram para sempre, acrescentou. “Isso também vai passar.”

Porém, primeiro seus compatriotas precisam mudar. “Precisamos acreditar em Deus e fazer aquilo que ele espera de nós. Precisamos ajudar uns aos outros, se quisermos recuperar nossa humanidade.”

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