Apesar de mortes no ano, atividade sísmica é normal

O terremoto de ontem na China foi o quinto de grande magnitude neste ano com vítimas. Mais de 230 mil pessoas morreram nos tremores que ocorreram nos primeiros meses do ano. Especialistas apontam, porém, que a frequência de abalos sísmicos não aumentou e eles não estão relacionados.

Talita Eredia, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2010 | 00h00

"O terremoto no Chile, que foi o maior neste ano, não teve nenhuma ligação com os que abalaram Haiti e China. Além disso, um tremor violento como o do Chile (8.8 graus) é registrado, em média, a cada 3 anos", afirmou ao Estado o geólogo João Willy Rosa, da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), pelo menos um terremoto acima de 8 graus de magnitude é registrado por ano. A frequência de tremores entre 7 e 8 graus é maior: cerca de 17 por ano. Abalos como o registrado ontem na China são ainda mais frequentes, aponta o USGS. Em média, 134 tremores entre 6 e 6.9 são registrados anualmente. Pelo menos 130 mil são registrados entre 3 e 3.9 graus. "Não existe nenhuma indicação de que nós estejamos acima da média que temos por ano", afirmou Rosa.

Em recente artigo no The New York Times, o sismólogo britânico Roger Musson aponta que o número de tremores é constante porque eles liberam energia de algum lugar e seria preciso aumentar a potência da fonte de energia para o aumento da frequência de tremores, o que seria bastante improvável.

Rosa acredita que a velocidade com que a informação é divulgada e a cobertura da mídia provocam a impressão de aumento do número de tremores.

Além disso, as últimas regiões afetadas, casualmente, são densamente povoadas, o que amplia o poder de destruição dos terremotos.

"O tremor da China e o do Haiti tiveram quase a mesma magnitude (6.9 e 7.0, respectivamente). Mas como o terremoto do Haiti ocorreu numa cidade sem estrutura e densamente povoada, causou mais estragos e mais vítimas, o que acaba causando uma impressão de mais impacto", lembra Rosa.

A Província de Qinghai fica numa região montanhosa, de choque de placas tectônicas, o que eleva o risco de grandes terremotos - como o que atingiu a Província de Sichuan, onde quase 90 mil pessoas morreram em 2008. Yushu, região do epicentro de ontem, tem baixa densidade demográfica, mas a mídia chinesa afirma que 85% das construções na área atingida ruíram.

A impossibilidade de se prever um terremoto e a falta de infraestrutura das áreas atingidas são agravantes.

Há duas semanas, um abalo de 7.2 graus foi registrado na fronteira entre EUA e México, sentido nas cidades de Los Angeles e San Diego e espalhando pânico na região da fronteira. Mas - como resultado de uma infraestrutura antissísmica mais eficiente - o número de mortos não passou de três.

Para lembrar

Em Sichuan, tremor matou mais de 80 mil

Em 12 de maio de 2008, um terremoto de 8 graus na escala Richter foi registrado na Província de Sichuan, no centro da China, destruindo grande parte da infraestrutura da região e matando mais de 80 mil pessoas. Na época, a agência oficial Nova China informou que os prejuízos diretos causados pelo tremor tinham sido estimados entre US$ 58 bilhões e US$ 73 bilhões. Na tragédia, barragens foram destruídas, alagando parte da região.

Cronologia

Haiti, 12/1/2010

Cerca de 230 mil pessoas morreram em terremoto de 7 graus. Tremor devastou a capital, Porto Príncipe (foto), provocando danos estimados em cerca de US$ 14 bilhões

Chile, 27/2/2010

Mais de 480 pessoas morreram em terremoto de 8,8 graus. O tremor, considerado um

dos mais intensos da história, provocou uma série de alertas de tsunami

Turquia, 9/3/2010

Pelo menos 51 pessoas morreram num tremor de 6 graus na escala Richter registrado no leste da Turquia. Terremoto também deixou mais de 30 feridos

México, 4/4/2010

Pelo menos 3 pessoas morreram em forte terremoto, de 7,2 graus, no Estado da Baixa Califórnia, perto da fronteira com os EUA. Tremor foi sentido em Los Angeles

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