Apesar de obstáculos, UE decide aceitar dez novos membros

Está decidido: a Comissão de Bruxelas deu seu "sinal verde" para a ampliação da União Européia. Portanto, em 2004, a Europa não contará apenas com 15 membros como atualmente mas sim com 25 integrantes. Os dez candidatos aceitos são três ex-repúblicas soviéticas (Letônia, Estônia e Lituânia) e cinco ex-integrantes do Pacto de Varsóvia (Polônia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Eslovênia), além de Malta e Chipre.A entrada de um dos candidatos - a Turquia - foi adiada. Quais os motivos? A Turquia está em situação econômica precária e os direitos humanos não são muito respeitados nesse país. Podemos acrescentar outro motivo, jamais admitido por Bruxelas, um motivo "tácito", como se diz em psicanálise: a Turquia é um país muçulmano, algo que não fica muito bem num espaço cristão.Portanto, de um só golpe, os Quinze vão engolir os Dez. Como uma sucuri! Mas será que a Europa não irá sofrer um colapso? A União Européia levou dezenas de anos para encontrar um pouco de harmonia entre os Quinze. E, eis que, de repente, de um dia para outro, ela deixa subir a bordo dez novos Estados, cada um mais desordenado que o outro!É preciso analisar alguns detalhes: os dez novos são países ao mesmo tempo pouco povoados e muito pobres: os Quinze têm 380 milhões de habitantes. Os Dez têm apenas 70 milhões. E, acima de tudo, o Produto Interno Bruto (PIB) acumulado dos Dez é inferior ao da Holanda sozinha. Não chega a 5% do PIB dos Quinze.Alguns se valem destas constatações para minimizar a dificuldade de sua absorção pela União Européia. Mas o raciocínio não é muito correto. Efetivamente, existe uma distância tão grande entre as economias de alguns deles (França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Holanda, etc) e as dos dez novos que a Europa irá sofrer um desequilíbrio estrutural fundamental. E a Europa rica deverá dar dinheiro, muito dinheiro, aos novos, se quiser que, aos poucos, o continente apresente certa coerência.Apenas um exemplo: Os Dez "novos" são pobres e agrícolas. Ora, atualmente, a economia rural dos "Quinze" é sustentada e galvanizada por um dispositivo comunitário chamado Política Agrícola Comum (PAC). É claro que os novos, que são ao mesmo tempo pobres e agrícolas, tentarão beneficiar-se o mais depressa possível das subvenções da PAC. Em outras palavras, os subsídios da PAC, que até agora beneficiavam apenas alguns países ricos (em primeiro lugar, a França), deverão ser distribuídos também entre os dez novos, na esperança de que, por volta de 2013, a PAC funcione da mesma maneira para todos os membros e que os camponeses da Hungria ou da Lituânia deverão ter mais ou menos os mesmos rendimentos dos agricultores da Europa rica (podemos já imaginar com pavor os berros que os camponeses franceses lançarão no dia em que suas subvenções serão roídas para serem redistribuídas a camponeses húngaros, eslovacos ou cipriotas).Trata-se apenas de um exemplo. Em todos os campos, encontramo-nos diante de obstáculos dramáticos. A Europa dos "Quinze" não se adaptou inteiramente a este "tremor de terra". O abalo causa pavor. A União Européia avança às cegas. A ampliação da UE foi preparada desafiando o bom senso. Ou melhor, não foi inteiramente preparada: os homens de Bruxelas tinham tanto medo de um "bloqueio" que preferiram "não abrir a caixa de Pandora". A Europa precipitou-se contra o muro, à maneira de um cego meio embriagado.Um homem, o belga Franklin Dehousse, denunciou essas loucuras. Dehousse foi um dos grandes negociadores dos tratados europeus. Agora está enlouquecido. "Os chefes de Estado se embrenham no nevoeiro... A Comissão de Bruxelas vive num universo fantasmagórico, digno de um desenho animado... Não será o fim do mundo. Apenas o princípio do caos... Basta ver a incapacidade dos "doze países" da zona do euro para administrar o Pacto de Estabilidade, para se imaginar o resultado com 25 países....Dizer que isso não custará um centavo aos 15 membros atuais da União Européia é um discurso idiota... O debate orçamentário europeu vai regressar à "fase anal" descrita por Freud.... Basta ver a Política Agrícola Comum: Jacques Chirac quer agora que a França continue recebendo dinheiro durante o maior tempo possível; Gerhard Schroeder está atormentado pelo aumento da fatura da Alemanha; José María Aznar aceita qualquer coisa, contanto que não se toque nas transferências de fundos para a Espanha..." Conclusão de Dehousse: "A ampliação da UE ameaça o projeto europeu."Mas vamos ser claros: não realizá-la custaria hoje o mesmo preço elevado em termos de desestabilização de todos esses países".

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