Denise Chrispim Marin/AE
Denise Chrispim Marin/AE

Apesar de pobreza, Charlotte é centro financeiro

Número de pobres cresceu 140% desde 1970 na cidade, conhecida como a 'Wall Street do Sul' dos EUA

Denise Chrispim Marin, enviada especial a Charlotte, EUA, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2012 | 03h07

CHARLOTTE, CAROLINA DO NORTE, EUA - A sede da convenção do Partido Democrata, na qual o presidente Barack Obama fará, na quinta-feira, o mais esperado de seus discursos de campanha, está no coração da "Wall Street do Sul". Charlotte é o segundo maior centro de movimentação financeira do país e sede de sua maior instituição, o Bank of America.

 

Veja também:

linkDemocratas fazem convenção para 'salvar legado' de Obama

linkQuestões raciais e de gênero marcam encontro

blog RADAR GLOBAL: Chuck Norris dá apoio a Romney

 

A cidade está a cerca de dois quilômetros de uma das comunidades mais empobrecidas do capital do Estado americano de Carolina do Norte.   Um estudo da Universidade Stanford, divulgado no ano passado, mostrou que, entre 1970 e 2007, o número de famílias pobres de Charlotte cresceu 140%. O porcentual superou a média nacional no período, de 100%. Na zona oeste da cidade, bairros de classe média foram substituídas por casas de famílias empobrecidas, com renda anual em torno de US$ 18 mil.

Willy e Mattie Bigby, casados há 55 anos, vivem numa casa de madeira nessa região com o orçamento limitado à aposentadoria de US$ 900 mensais. Willy, de 72 anos, trabalhou como caminhoneiro por cinco décadas e conseguiu financiar o estudo superior de seus sete filhos. O casal ainda paga a hipoteca da casa, em valor baixo, mas não reclama do custo de vida e se dizem com sorte não ter visto nenhum dos filhos enfrentar a fila do desemprego nos últimos quatro anos de crise.

Como seus vizinhos, o casal assistirá ao discurso de Obama na quinta-feira. E votará nele, assim como o fizeram em 2008. "Nasci em 1929. Meu pai me contou como a economia quebrou naquele ano e só se recuperou de vez em 1945", afirmou Willy Bigby. "Nenhuma pessoa é capaz de consertar uma economia quebrada em apenas quatro anos. Quando Obama chegou, a confusão já estava armada. Não importa qual raça tenha: ninguém faria melhor do que ele."

A preocupação maior está no destino do programa de saúde para os aposentados (Medicare). Responsável por boa parte dos gastos não militares do governo, ele se tornou uma questão central no debate entre Obama e seu adversário, o republicano Mitt Romney.

"Eu gosto do Medicare como ele está. Não se pode colocar limites no que uma pessoa pode gastar com a saúde", afirmou o ex-caminhoneiro, referindo-se à proposta de Romney de reforma do programa.

Enquanto pintava a fachada de uma casa no feriado do Dia do Trabalho (comemorado ontem nos EUA), George Wingo, de 47 anos, igualmente dizia não ter dúvidas sobre seu voto em Obama. "Ele é o homem certo para a cadeira na qual está sentado. Vamos lhe dar mais quatro anos e ver o que ocorre", afirmou ele, que trabalha há três anos em uma fábrica de embalagens de papel.

Na mesma vizinhança, a oposição marca sua presença no jardim de uma pequena casa de madeira, na forma de uma placa com o nome do deputado republicano Ron Paul, candidato ultraliberal derrotado nas primárias do partido por Mitt Romney.

O morador, Daniel Simeone, de 33 anos, dedica-se ao design de websites e é um dos raros brancos da redondeza. Ele foi delegado na convenção estadual republicana. Sua renda anual é de US$ 26 mil, somados os ganhos com o bico que faz como fotógrafo. Não votará em 6 de novembro em Obama nem tampouco em Romney, mas no candidato do Partido Libertário, o ex-governador do Novo México Gary Johnson - que não tem chances de vitória.

Simeone diz que acompanhará a repercussão do discurso de Obama - mas não o evento - e se diz frustrado com a escolha de Romney pelos republicanos, "porque ele não é um conservador". "Ele não quer eliminar órgãos do governo, acabar com as guerras, não fala sobre a política monetária e só quer o equilíbrio fiscal no futuro", afirmou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.