AP Photo/Aung Shine Oo
AP Photo/Aung Shine Oo

Apesar de pressão internacional, líder de Mianmar continuará com seu Nobel da Paz

Diplomatas e governos chegaram a consultar os organizadores do prêmio para saber que tipo de pressão sobre Aung San Suu Kyi poderia ser exercido; no entanto, Oslo alertou que a condecoração não pode ser retirada

Jamil Chade, enviado especial / Zurique, Suíça, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2017 | 13h01

ZURIQUE, SUÍÇA - Pressionada a agir diante da crise que atinge a minoria rohingya, Aung San Suu Kyi tem seu status de líder mundial a favor da paz ameaçado e passa a ser duramente criticada dentro e fora das reuniões diplomáticas.

Nos bastidores, diplomatas e governos chegaram a consultar os organizadores do prêmio Nobel para saber que tipo de pressão sobre a líder de Mianmar poderia ser exercido. Mas Oslo alertou que a regra é que um prêmio não pode ser retirado. Diante disso, eles preferiram convencer outros personagens premiados a protestarem publicamente e exigir uma ação de Suu Kyi.

Nesta semana, o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Al Hussein, denunciou a situação da população rohingya como um “exemplo de limpeza étnica”. O constrangimento levou a líder de Mianmar a anunciar que não viajaria a Nova Iorque, onde era aguardada para a abertura da Assembleia-Geral da ONU. Oficialmente, o cancelamento é para “protestar” contra a maneira que seu governo está sendo tratado.

Entre ativistas e líderes europeus, a reação é de constrangimento e indignação. Muitos governos e entidades haviam estendido por anos o tapete vermelho para a líder de Mianmar, enquanto os prêmios se proliferaram e a fila de chefes de Estado que queriam vê-la em sua prisão domiciliar aumentava.

Em sua primeira viagem pela Europa, por exemplo, ela chegou a ser tratada num patamar similar ao que foi oferecido a Nelson Mandela. Na ONU, seu primeiro discurso em Genebra foi aplaudido por longos minutos por mais de 2 mil pessoas de pé. Na ocasião, o ex-diretor geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Juan Somavia, chegou a declarar: “Quando meus netos me perguntarem, posso dizer que eu estive em seu primeiro pronunciamento na ONU”.

+ Para entender: A minoria rohingya, maior população apátrida do mundo

Hoje, a avaliação sobre ela começa a ser revista. Filha de Aung San, considerado o pai da independência de Mianmar, a líder atual sempre fez parte da elite política do país, mesmo no exílio. Desde 2015, porém, ela passou a ser a maior força política do país e líder de fato de seu país.

Mas, apesar da pressão da ONU, ela jamais aceitou dar a cidadania aos rohingyas, o que atraiu fortes críticas das Nações Unidas. No início de 2017, a entidade ainda publicou o resultado de uma investigação, denunciando crimes e esperando que ela fizesse algo a respeito.

Sua recusa em proteger essa minoria depois da publicação do relatório acendeu os sinais de alerta desde então nos corredores das Nações Unidas de que ela não iria agir.

Depois de longos meses em que as críticas à líder ficaram apenas nas reuniões fechadas, agora as cobranças são públicas. Nesta quinta-feira, 14, no Parlamento Europeu, a chefe da diplomacia da Europa, Federica Mogherini, fez um chamado à administração do prêmio Nobel.

“A luta pela democracia em Miamnar foi uma fonte de inspiração para muitos pelo mundo e para mim”, disse. “A responsabilidade que a liderança do país tem hoje é imensa, exatamente por eles terem sido uma inspiração para o mundo democrático, em especial Aung San Suu Kyi”, declarou.  “Eles agora precisam mostrar que a democracia pela qual lutaram pode funcionar para todos em Mianmar, além das fronteiras étnicas, sociais e religiosas”, cobrou Federica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.