HELVIO ROMERO/ESTAD?O
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Apesar de sanções, economia da Coreia do Norte cresce e banca escalada militar

Regime está sob restrições internacionais severas, mas desrespeitadas, o que permite um período de prosperidade econômica; mercados privados se espalham pelo país, garantem produtos à classe média e impulsionam uma elite de empreendedores

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

A Coreia do Norte está sujeita ao mais severo regime de sanções internacionais da história, mas vive seu período de maior prosperidade econômica desde a fome devastadora provocada pelo fim da União Soviética nos anos 90. Mercados privados que se espalham pelo país garantem a oferta de produtos à emergente classe média e impulsionam uma elite de empreendedores chamados de donju – “mestres do dinheiro”. 

Novos edifícios se integram à paisagem de Pyongyang a uma velocidade sem precedentes e apartamentos são vendidos à margem do controle do Estado a preços que chegam a US$ 150 mil, no caso de unidades “luxuosas” de três quartos. Serviços privados de transporte, construção, educação e até de correios prosperam, enquanto é cada vez maior o número de jovens com telefones celulares, que só têm acesso à censurada intranet norte-coreana.

O país continua a ser pobre e as condições de vida no interior e na zona rural são muito piores do que na capital. Quase metade da população é desnutrida, mas a fome generalizada deixou de existir. No poder desde 2012, Kim Jong-un experimenta reformas que dão mais liberdade a estatais e cooperativas agrícolas para definir sua produção e a remuneração de seus funcionários e para criar excedentes que são vendidos a preços de mercado. 

A Coreia do Norte não divulga estatísticas sobre sua economia, mas o Banco Central da Coreia do Sul estima que o reino da família Kim cresceu 3,9% no ano passado, no que pode ter sido o mais elevado índice em 17 anos. O tamanho do PIB, porém, é de US$ 28,5 bilhões, o equivalente a 2,5% do registrado pelo vizinho do Sul.

“A recuperação econômica ajuda a explicar o acelerado ritmo dos testes balísticos e nucleares conduzidos por Pyongyang”, disse Nicholas Eberstadt, especialista em Península Coreana do American Enterprise Institute, em Washington. 

Segundo ele, o principal indício da relativa prosperidade é a estabilidade na cotação da moeda norte-coreana em relação ao dólar e ao euro nos últimos cinco anos. “Nenhum país no estilo soviético, com planejamento centralizado, conseguiu isso”, observou.

A estabilidade revela que Pyongyang manteve acesso a recursos externos, apesar das sanções internacionais que restringem suas exportações. Relatório de especialistas entregue há dez dias ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) concluiu que a expansão das sanções foi acompanhada do aumento de seu descumprimento. 

Há indícios de que a Coreia do Norte vende equipamentos e treinamento militar a países da África e do Oriente Médio. Entre seus principais parceiros estaria a Síria de Bashar Assad. Pyongyang também tem um acordo de cooperação “científica” com o Irã, expressão que muitos especialistas veem como um eufemismo para o desenvolvimento nuclear.

“A moeda norte-coreana deixou de se desvalorizar cerca de seis semanas depois da assinatura do acordo com Teerã”, observou Eberstadt. “Eles conseguiram assegurar fontes de financiamento adicionais e invisíveis do exterior. Essas são coisas que não estão sendo detectadas de maneira adequada.”

A relativa prosperidade garante a destinação de recursos ao setor nuclear e aumenta a capacidade de resistência do regime a pressões econômicas internacionais. “Uma ajuda de 50 mil toneladas de alimentos era suficiente para comprar o diálogo e a cooperação com Kim Jong-il, mas coisas são diferentes agora”, disse estudo divulgado no mês passado pelo Daily NK, publicação especializada em Coreia do Norte. “Enquanto o início da era de Kim Jong-il foi caracterizada pela fome em massa, a de Kim Jon-un é marcada pelo aumento das oportunidades para enriquecer.”

Especialistas estimam que o setor privado já representa de 30% a 50% da economia do país e continua a se expandir em alta velocidade. “Eles estão seriamente se tornando capitalistas”, disse Andrei Lankov em entrevista à Vice News. Nascido na Rússia, ele vive em Seul, na Coreia do Sul, onde dá aulas na Universidade Kookmin e dirige a empresa Korea Risk Group.

O principal efeito desse processo é o aumento da desigualdade social no país nominalmente comunista. “Enquanto a renda média mensal em cidades do interior parece ser de US$ 20 a US$ 50, pessoas ricas podem facilmente gastar alguns milhares de dólares a cada mês em suas necessidades de consumo”, escreveu Lankov em estudo divulgado pelo Carnegie Endowment for International Peace no ano passado. 

Em três de seus cinco anos de governo, Kim Jon-un entregou complexos de apartamentos e lojas que mudaram a paisagem de Pyongyang. O mais recente empreendimento é a Rua Ryomyong, inaugurada em abril para marcar os 105 anos de nascimento de seu avô, Kim Il-sung, fundador da Coreia do Norte.

A arquitetura dos mais de 20 edifícios do bulevar está longe da homogeneidade soviética e é marcada por curvas e assimetrias. Os três mil apartamentos da região estão espalhados em prédios de 30 a 50 andares – o mail alto deles tem 70 pisos. O regime se gaba de ter concluído o complexo em pouco mais de um ano. O ritmo feroz das construções e o uso de material de qualidade questionável provocou a queda de um edifício de 23 andares, matando dezenas de pessoas, em maio. 

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