Apesar de trégua, congoleses sofrem com violência e epidemias

Cerca de 14,5 mil se refugiaram em Uganda desde início do conflito; população sofre com seqüestros e extorsão

Efe,

21 de novembro de 2008 | 15h35

Apesar da trégua entre os rebeldes e as forças governamentais na República Democrática do Congo (RDC), a população sofre com uma violência incessante, com o aumento de preços e com o recrudescimento das epidemias, denunciaram nesta sexta-feira, 21, as agências humanitárias da ONU. "Parece que o cessar-fogo permanece, mas a situação é muito tensa e foram registrados constantes focos de violência", declarou em entrevista coletiva o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), William Spindler. Veja também:ONU decide aumentar missão de paz no CongoONU diz que 'centenas' de rebeldes do Congo estão recuandoGuerra do Congo se espalha pela ÁfricaHistórico dos conflitos armados no Congo Esta agência informou que, desde que começaram os confrontos 14.500 habitantes da RDC da região do Kivu do Norte se refugiaram em Uganda. A porta-voz do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), Elysabeth Byrs, lamentou o aumento da violência contra a população civil, que abrange desde ameaças, pilhagem e até trabalho forçado. "Da região fomos informados que aconteceram episódios de seqüestros e extorsão para forçar as pessoas a trabalharem de forma obrigatória", declarou Byrs. Além disso, a porta-voz da Ocha denunciou o agravamento dos ataques sexuais contra as mulheres, "dos quais já são contabilizados mais de 20". Outra das preocupações das agências da ONU é o extraordinário aumento do preço dos alimentos, que segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) aumentou 114% desde janeiro. As dificuldades para realizar negócios por causa da insegurança e do abandono das terras por agricultores foragidos são as causas principais deste aumento. Em relação aos aspectos sanitários, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que os casos de cólera aumentam dia após dia, tanto que em apenas uma semana foram contabilizados quase 500 novos doentes e 9 mortos.  Esforços insuficientes Os grupos humanitários que trabalham no leste da República Democrática do Congo (RDC) consideram insuficiente a atuação da Missão de Paz da ONU neste país (Monuc), apesar da recente decisão do Conselho de Segurança da organização de elevar o número de militares para 20 mil. "A Monuc não faz quase nada, são meros observadores e contam com meios técnicos e humanos muito pobres", disse em Goma, a capital da província de Kivu Norte, leste, Juanjo Aguado, um católico espanhol que trabalha em um projeto educacional do Serviço Jesuíta para Refugiados (JRS). Para ele, "a única coisa" que os militares da Monuc fazem bem "é o controle da cidade de Goma, porque os soldados que estão no campo, completamente isolados, são indianos e paquistaneses que desconhecem o terreno, a situação e, também, o idioma". "Eles não têm uma idéia geral da situação e falta clareza no mandato da Monuc", acrescentou Aguado, que explicou que "se trata de uma guerra com combates todos os dias em algum lugar, entre os grupos armados" que se estendem por toda a região de Kivu Norte. Sobre o cessar-fogo declarado em 29 de outubro pelos rebeldes tutsis congoleses do Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP), ele lembrou que "é unilateral, eles próprios não o respeitam e os outros (o Exército e as milícias locais Mai-Mai) não o aceitam". O CNDP, liderado por Laurent Nkunda, declarou o cessar-fogo após ocupar grande parte de Kivu Norte e se situar às portas de Goma, e posteriormente se retirou de diversas frentes à espera de negociações com o governo, presidido por Joseph Kabila. "Sou defensor das forças de paz, mas não assim, porque quando a situação esquenta eles põem uma tampa, mas não conseguem apagar o fogo", concluiu o jesuíta espanhol. Da mesma opinião que Aguado, o porta-voz da ONG Intermón Oxfam para a RDC, José Luis Barahona, afirma em uma nota enviada nesta sexta à Efe que a decisão de reforçar a Monuc com outros três mil soldados e policiais "não basta para solucionar a crise no terreno e não deve encobrir a urgente necessidade de intervir mais rapidamente." "Há vidas em perigo e milhares de pessoas estão sofrendo devido aos combates e à insegurança crescentes", diz Barahona, que pede à União Européia (UE) que "responda rapidamente com seu contingente especial em estado de alerta, criado exatamente para responder a este tipo de crise". Até que os soldados da ONU cheguem, o que a Oxfam considera que pode levar de três a quatro meses, ele pede "uma injeção rápida de tropas européias, com um mandato claro para impedir a continuação dos combates e ajudar na proteção dos civis." Alerta A situação em Kivu Norte, segundo explicou à Efe o vice-governador da província, Feller Lutaichirwa, "é realmente preocupante, com 250 mil deslocados (nos quatro últimos meses)", aos quais é muito difícil levar ajuda. Ele afirma que a maioria das localidades da província registrou muitos casos de cólera e a doença poderia se propagar e criar uma situação de autêntico perigo se os combates, agora praticamente paralisados, prosseguirem. No entanto, o vice-governador manifestou sua confiança em que, com o apoio da comunidade internacional e com uma negociação entre todos os grupos armados e o governo de Kinshasa, "a paz possa ser alcançada."

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