Apesar de tudo, Bush parece disposto a ir à guerra

Esta tarde, todas as emissoras de rádio francesas estavam ligadas em Nova York, no prédio da ONU, à escuta de Hans Blix e Mohammed el-Baradei. E, no entanto, não havia muito suspense, já que para a maioria dos observadores a reunião foi apenas protocolar e Bush está decidido a ir à guerra, independente do resultado das inspeções. De sorte que as exposições dos dois especialistas tomaram o sentido bizarro de uma cena imaginária, de uma cena virtual.Entretanto, segundo as notícias, esses relatórios não são favoráveis às teses da guerra. As imagens recebidas da ONU eram evidentes, com o aspecto tenso e incomodado de Colin Powell enquanto Hans Blix falava. É preciso dizer que os suecos foram muito críticos à declaração feita recentemente por Powell, diante da mesma ONU. Das acusações então proferidas pelo secretário de Estado, não restou grande coisa, a não ser que o Iraque possui de fato alguns mísseis cujo alcance passa um pouco o limite de 150 quilômetros.E depois, o vexame: Blix, que conhece um pouco, confirma o que muitos já supunham: as fotos apresentadas por Powell não têm muito significado. A idéia se confirma, portanto, que tudo é publicidade, propaganda, intoxicação e que não hesitamos em distorcer a verdade para dar uma vaga legitimidade à guerra.O relatório do outro inspetor, Mohammed el-Baradei, é ainda mais decisivo. Nenhum traço de armas nucleares no Iraque.Portanto, voltamos à questão inicial: Bush tem a intenção de levar em conta esses documentos e aceitar que os inspetores fizeram seu trabalho e que uma nova reunião poderá acontecer, por exemplo, no dia 14 de março, como sugere o ministro francês? Ou vai ignorá-los? Um dos melhores conhecedores franceses de Bush e de sua família, Eric Laurent, afirmou que a sorte do Iraque está selada há muito tempo. Pode ser que estivesse antes mesmo dos ataques de 11 de setembro de 2001. Ou, claro, logo depois do horror dos ataques.Quatro dias depois da derrubada das torres gêmeas, houve uma reunião secreta em Washington. E lá, Bush Júnior se deixou convencer de bom grado pelos velhos conselheiros de seu pai - os neoconservadores, transformados depois em ministros e conselheiros do atual presidente - a fazer seu negócio contra Saddam Hussein.Quais serão os efeitos desses dois relatórios dos especialistas? A facção dos países do Conselho de Segurança que querem o prosseguimento das inspeções será reforçada? Nós saberemos muito rapidamente. Desde já, uma conseqüência é provável: nos países da Europa, e particularmente na França, o campo dos moderados deverá ser reforçado.Ficou claro durante a tarde: nos intervalos dos programas de rádio que retransmitiam a sessão da ONU, os ouvintes reagiam ao vivo. E essas reações foram maciçamente hostis aos norte-americanos. Às vezes, de maneira violenta e muitas vezes, com um verdadeiro ódio a Bush.Entre outras, as acusações que sempre volta à tona: a família Bush, mergulhada no petróleo há muitos anos, mantinha relações secretas com a família Bin Laden. Ou ainda: George W. Bush, ao longo de sua "catastrófica carreira petroleira", foi salvo muitas vezes graças à ajuda de banqueiros sauditas, às vezes até por banqueiros ligados à família Bin Laden.Verdade? Mentira? Resta a derradeira questão, que sempre foi relevada por jornalistas e auditores. Quais poderão ser as conseqüências de uma guerra iniciada em condições tão difíceis e duvidosas? E os países que se recusaram a se associar à cruzada, como França e Alemanha, entre outros? Depois, serão punidos pelos poderosos EUA?

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