Apesar dos sorrisos, líderes divergem em tudo

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, inclinou a cabeça repetidas vezes, num sinal de aprovação, enquanto ouvia o presidente Barack Obama, quando se reuniram na Casa Branca. E ainda mais energicamente quando Obama falou da ameaça representada por um Irã com armas nucleares. Obama retribuiu a gentileza e também assentiu com a cabeça quando Netanyahu falou de sua disposição em iniciar negociações de paz com os palestinos. Então, está tudo bem entre Estados Unidos e Israel? Na verdade, não. Por trás da aparente concordância, inúmeras divergências surgirão nas próximas semanas, meses e anos. Obama está em busca de uma grande realização em política externa e, possivelmente, encara a solução do conflito entre israelenses e palestinos como o menos insolúvel desafio entre todos os que enfrenta. E o fato de ter chegado a essa conclusão mostra o quanto são árduos os problemas do Afeganistão, Paquistão, Irã e Iraque. Mas Netanyahu não tem nenhuma intenção de facilitar as coisas para Obama. As palavras usadas por ele em Israel sugerem que sob seu governo não haverá mudanças significativas com o objetivo de se criar um Estado palestino.Esse problema, no seu conjunto, está muito mais difícil de ser solucionado hoje do que da última vez em que um presidente dos EUA se esforçou no sentido de um acordo de paz. Foi Bill Clinton em 2000. E, como se o conflito palestino-israelense já não fosse, por si só, bastante complexo, hoje ele está vinculado ao impasse nuclear iraniano. Para Obama, uma solução do problema israelense e palestino seria útil para convencer o Irã a aceitar um acordo sobre a questão nuclear. Mas Netanyahu quer que a questão iraniana seja resolvida antes de negociar, se um dia isso ocorrer, com os palestinos. Obama pretende iniciar negociações diretas com Teerã, e tentar persuadir os iranianos a desistir da fabricação de armas nucleares. Netanyahu quer que essa tentativa diplomática seja apoiada por sanções econômicas. E alertou que, se as medidas fracassarem, Israel agirá unilateralmente, lançando ataques aéreos contra usinas nucleares iranianas, aos quais os EUA se opõem vigorosamente. A Casa Branca receberá a visita, no final do mês, do presidente egípcio, Hosni Mubarak, cujo governo vem mantendo conversações com o Hamas, na Faixa de Gaza, e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, cuja autoridade está restrita à Cisjordânia. Somente depois é que as grandes linhas de um plano de paz serão apresentadas por Obama. O governo americano, ao ver que suas tentativas para que israelenses e palestinos chegassem a um acordo sozinhos foram inúteis, deseja agora assumir a liderança no caso. Netanyahu, líder de uma coalizão frágil oposta a um acordo, pode facilmente bloquear, ou pelo menos retardar, qualquer ação para a obtenção da paz. E tudo isso antes que Israel se volte para questões mais críticas: quem controla Jerusalém e o que fazer com os refugiados palestinos. Mas não é só Netanyahu que reluta. Os palestinos não conseguem formar uma frente unida, divididos entre o Hamas em Gaza e o governo fragilizado do Fatah de Abbas, na Cisjordânia. Se Netanyahu quer desviar a atenção dos EUA, ele poderá, por outro lado, aceitar negociar com a Síria. Obama tem uma vantagem sobre Bill Clinton, que é o fato de ter se envolvido nessa questão no início da sua presidência e não no fim. Mesmo assim, com os atuais líderes em Israel e nos territórios palestinos, é improvável que avance na questão até o final de seu mandato.*Ewen MacAskill é chefe da sucursal do "Guardian" em Washington

Ewen MacAskill, THE GUARDIAN*, O Estadao de S.Paulo

19 de maio de 2009 | 00h00

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