Marvin Recinos / AFP
Marvin Recinos / AFP

Apoio a presidente da Nicarágua tem origem na Frente Sandinista

Ex-embaixadores dizem que liderança é de ex-guerrilheiros que estão treinando nova geração de radicais

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2018 | 05h00

Os grupos paramilitares e milicianos que apoiam o governo em crise de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, têm origem na Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), movimento revolucionário armado que, nos anos 70, derrubou o regime do ditador Anastasio Somoza e implantou no país uma república socialista.

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Os líderes atuais, de acordo com informações de dois ex-embaixadores brasileiros – que na época atuaram na região e ainda hoje mantêm fortes ligações na área –, eram então jovens guerrilheiros “empenhados em criar um polo socialista ortodoxo na América Central”. Um dos diplomatas, citando um relatório da inteligência dos EUA de 2017, sustenta que “no momento, está sendo treinada uma nova geração de radicais para dar sustentação a Ortega”.

A ação que matou a estudante brasileira Raynéia Gabrielle de Lima pode estar ligada a um plano maior das organizações clandestinas destinado a intimidar pela violência os manifestantes contrários ao governo, principalmente os de Manágua, segundo a Coordinadora Universitaria, organização que reúne alunos de oito universidades nicaraguenses. A entidade crê que haja “algumas centenas” de brasileiros voluntários, alunos de vários cursos ou, “apenas de pessoas que escolheram viver no país”. A chegada de brasileiros é um movimento com ao menos quatro décadas.

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Quando foi eleito presidente pela primeira vez, em 1984, Ortega adotou um complexo programa de reforma agrária. O país, pequeno, mantinha uma guerra civil em oposição aos Contra, uma guerrilha de direita sustentada pelo governo dos EUA. Faltava mão de obra para o campo, principal fonte do PIB local. 

Ortega fez um apelo internacional pedindo trabalho voluntário por meio dos partidos alinhados com os sandinistas da FSLN. Recebeu apoio. Em 1986, cerca de 300 brasileiros trabalhavam em duas fazendas estatais, produtoras de café, no Departamento de Matagalpa. A rotina diária era dura, lembra uma professora universitária que esteve na Nicarágua até 1988: “pão, café e uma banana no desjejum, às 5 horas; tortilhas com feijão no almoço e no jantar”. A água era tirada de um poço. Banhos, só em rios e cachoeiras.

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Ocasionalmente os “espontâneos” como eram chamados, tinham de sair às pressas dos acampamentos em caminhões militares, às vezes à noite – sinal de que a luta estava próxima. Além de brasileiros, havia mexicanos, espanhóis, colombianos, russos, alemães orientais, americanos, canadenses e, lembra a professora, “muitos, muitos cubanos”.

Estudantes de Medicina, de Agronomia e Agricultura foram convocados a permanecer no país em 1990, depois da eleição de Violeta Chamorro, de oposição aos sandinistas, eleita com 55% dos votos. O convite foi aceito. Embora não haja dados precisos a respeito do efetivo de brasileiros que permaneceu, o comércio local é repleto de estabelecimentos explorados por brasileiros – churrascarias e lojas de artigos para turistas, por exemplo. 

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